It Follows

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De certa forma, o que me cativou tanto em It Follows foi a mentira que ele é. Explico. Para isso, antes, precisamos compreender minimamente a sinopse: a obra se trata de um conto sobre uma estranha maldição; aparentemente, ao se envolver com uma pessoa ‘contaminada’, aquele que se envolveu passa a ser seguido por criaturas assassinas. Estas criaturas são, por sua vez, pessoas fisicamente normais – mas que ninguém ‘não-contaminado’ pode ver – e que, ao tocar em suas vítimas, as matam na hora. A única vantagem dos ‘contaminados’ frente as criaturas é o fato de que as criaturas apenas caminham lentamente, dando uma boa margem de tempo para se poder fugir correndo ao avistar uma.

Curioso, não? A própria história do filme é sui-generis o bastante, gerando um certo receio ou até mesmo dúvida: afinal, do que se trata? Vemos ao longo dos minutos, na narrativa, uma construção extremamente carregada de um terror claustrofóbico, principalmente porque a protagonista do filme, uma das ‘contamidas’, é constantemente seguida de modo a nunca, mesmo na hora de dormir, estar em paz consigo mesma – sempre tendo de arranjar meios ou ferramentas para se proteger de uma perseguição insensata de criaturas extremamente persistentes. Mas é justamente por isso que o filme brilha, como dito, em uma mentira no que é.
De certo modo, tudo o que vemos ao longo da trama é uma negação daquilo que imaginamos anteriormente, do jeito que discursivamente isto se constrói pelo diretor na narrativa; a primeira impressão do terror é logo substituída por uma difícil expressão no universo dos filmes indie da solidão e pressão dos jovens na sociedade; tão logo nos deparamos com os elementos sobrenaturais dispostos no projeto, somos ‘enganados’ por acreditar e conceber em como aquilo se desenvolve no universo da fantasia, ou seja, na construção de um mundo imaginativo de criaturas más e fictícias; porém, nada é exatamente como parece, de modo que as mesmas, exploradas pela narrativa conturbada dos personagens, constróem exatamente um diálogo muito mais introspectivo – dos próprios personagens – e não em efetivamente conciliar um mundo exterior, ou nas criaturas como fundamento da fantasia; daí a ‘mentira’, porque elas não cumprem a função que inicialmente aparentam, ou seja, serem ‘inimigos’ – e ainda que assutem MUITO em várias sequências – mas, sim, como pano de fundo para discutir o que elas causam ao surgirem, a claustrofobia de um mundo jovem conturbado e solitário, também exacerbado em como a fotografia do filme viaja utilizando os extremos sociais da cidade – a pobreza alarmante e a mentira calma suburbana americana, criando a fantasia não em conceber as ‘criaturas más’ como principal propósito de apreensão e paranoia, mas em como a mentira da infância feliz dos protagonistas, humanos e pessoas supostamente normais, é substituída de cara ao se deparar com a crueldade de uma adolescência que suga uma ‘beleza poética’ do mundo e o apresenta de maneira, digamos, feia, crua.

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Quando nos confrontamos com isto enquanto espectador, entendemos que o filme não é muito bem ou apenas um ‘terror’, mas uma viagem estranha ao ‘drama’ de pessoas e contos falidos, o submundo da classe média americana que se sobrepõe em mentiras e falácias, logo destruídas assim que se apresentam todos os problemas possíveis: as pressões sociais, uma distância entre pessoas proporcionada pela riqueza ou mudança social, o desconhecimento de vidas opostas na cidade, o afastamento de pessoas com o envelhecimento e assim por diante; por isso as criaturas que, muito mais que elementos sobrenaturais, servem como um questionamento – bizarro, admito – sob a forma de uma história completamente surreal.
Mas não é só por isso que o filme é bom por ‘mentir’; há também o contraste físico na claustrofobia da película; como dito no início, embora os ‘contaminados’ possam correr e as criaturas não, o diretor soube construir através das cenas e cenários exatamente o oposto: são os próprios protagonistas que se veem encurralados – mesmo em vantagem – ora pelo cansaço, pela distribuição da arquitetura, ou como são pegos desprevenidos; novamente, o filme ‘mente’ ao espectador justamente eu disponibilizar o contrário, enquanto outras obras do gênero focam estritamente em monstros que sufocam pela sua velocidade ou capacidade de replicação, aqui, o sufocante é a situação: é ela que consome os personagens de modo a torná-los cada vez mais surtados e cansados, em atos no qual eles mesmos sucumbirão pelos erros. Nisto, o importante não é exatamente o quão assustador fisicamente possam ser estas criaturas, porque elas não são nada assustadoras – apenas ‘comuns’ – mas, sim, em como elas são capazes de através da sua própria normalidade se utilizar disso para ganhar dos ‘contaminados’, enganando sempre que possível. A mentira, neste caso, é palpável: o terro do filme é a negação dos outros projetos, apresentando o medo como qualquer coisa corriqueira para os personagens e também espectadores – pessoas normais, em uma vida normal, porém invertidas pelo acaso de uma situação maluca.

Dentre estes motivos, o que vemos de It Follows é exatamente o que ele se propõe: como terror, ou drama, ou sabe-se lá o que indie que pretende ser, a inovação do projeto conta mais que à replicação de fórmulas certas. Ele ousa e se submete a criar algo novo, funcionando como se espera; um tiro no escuro que colhe os frutos da diferença, por não seguir fórmulas ou conceitos, acaba por ser uma ótima diversão. Vale pena construção claustrofóbica, vale como reflexão, vale até por uma certa beleza fotográfica ao e deparar com o abandono urbano. Um ótimo filme, Boa Tarde e até a Próxima Sessão!

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