Discípulos do Caos – Slipping Into Darkness

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Um dos efeitos da arte e, daí também o cinema, é que ela pode ser surpreendentemente positiva por motivos errados; dito isso, alguns casos acontecem o estranho efeito contrário ao esperado: o filme que é em si e visivelmente mal projetado – seja no roteiro, seja nas atuações, seja na edição, ou nos cortes de orçamento – mas, ainda assim, por milagre, na soma dos motivos, espetacurlamente nos deparamos com algo… interessante, ou as vezes até melhor.
Nesta gama do acaso poderíamos englobar o filme Slipping Into Darkness (que está no catálogo do Netflix), justamente um caso bizarro que exemplifica este sentimento; em nenhum momento fica muito escondido o custo barato de todo o projeto, claramente enjambrado em vários momentos, com atores duvidosos, na economia das roupas ou em cortes de cena extremamente forçados (provavelmente fruto da edição com pouco material gravado); ainda assim, há um certo charme em tudo isso, convertendo a obra em algo superior, digamos, até num cult subestimado. No geral, não há surpresas nem novidades como um todo, uma trama com assassinatos, grupos esteriotipados do universo dos anos 80/70 dos EUA – patricinhas, uma cidade pequena, motoqueiros, o herói/galã que superou um passado conturbado – e uma série de voltas num história de suspense ou até mesmo um thriller psicológico. Daqui, nada é exatamente o que já não vimos à exaustão, mesmo com o filme sendo ligeiramente antigo, um grande reaproveitamento de ‘coisas que deram certo’ em outras obras consagradas. A ironia é exatamente a execução: é nos erros crachos que a película cresce e se diferencia positivamente.
É difícil transcrever com naturalidade como o erro pode ser glorificado e, no caso deste, ainda mais tentar explicar os motivos; no entanto, pela falta de verba e consequentemente em suas escolhas, o projeto toma um certo ar perturbador, por vezes existencialista além da conta (como no drama do assassino e sua amizade com o protagonista) e por vezes estéticamente macabro (como a cena inicial das bonecas; muito interessante, aliás), que acabam tornando a narrativa uma colcha de retalhos ao mesmo tempo mal elaborada mas tão interessante que refletem uma pessoalidade incômoda: do primeiro momento, ao se deparar com todos os problemas do filme, o espectador é afastado da obra justamente por reconhecer uma distância enorme na ficção ruim (e seus elementos, como personagens forçosamente dramáticos, um exagero caricato nos esteriótipos etc.) e de si mesmo: não há espaço ali para um reconhecimento amistoso, uma imersão no que se mostra na tela de modo a tornar aquilo em algo no qual se defina uma certa identificação ao ponto de assistir e gostar… parece apenas um filme mal-feito. Porém, daí em diante e talvez por confiar tanto nas suas falhas e exageros, sobretudo em aspectos categoricamente perceptíveis – como o caso da trilha hiperbolicamente melancólica numa guitarra pra lá de depressiva, ou em como os personagens não se firmam em nichos ou emoções específicos por causa de atuações ruins e no roteiro corrido em pouco tempo, embaladas ainda por cortes entre uma cena e outra que informam de uma maneira muito abrupta a mudança de situação e de tempo diegético – o filme chama atenção: o incômodo inicial é substituído por uma sucessão de ‘menores incômodos’ em tudo, por assim dizer, que se anulam numa soma dos problemas e acabam se complementando de maneira antagônica ao natural. É quase como se a obra desenvolvesse uma identidade, de tantos erros se forme uma assinatura: a contínua e problemática película ganha um rosto assim… deformado, mas rosto.

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Paralelo a isso, o incômodo do espectador ao assistir é, no suceder dos elementos da trama, também relacionado à obra de forma a criar um vínculo entre quem assiste e o que se vê: se no começo só há erros, conforme os personagens – mesmo mal interpretados – ganham destaque ao passar de suas situações, há uma conexão entre este espectador incomodado e aquelas figuras do filme, justamente porque as mesmas tentam, na sua ficção mal elaborada e caricata, também fugir das realidades propostas na tela; é como se todos estivessem querendo ‘ir embora’ dali, de maneira a abandonar as situações, os momentos e apenas ‘desistir de tudo’, inclusive do filme. Daí em diante o thriller psicológico fica evidente, sobretudo no talvez único acerto no projeto, em alguns momentos onde a fotografia busca os planos abertos, mostrar os cenários para relacionar aos personagens (e porque não espectadores) na mesma situação: se há a vontade do abandono em ambos, é como se todos estivessem ‘presos’, mas não na claustrofobia de planos e ambientes fechados e sim num mundo aberto, infinito e gigante. Por fim, não há fuga – nem na ficção de seus personagens e tampouco do espectador que, mesmo sabendo da soma de falhas, é embalado ao ver do começo ao fim: eis o mundo como ele é; intragável, sim, mas ainda assim, um mundo gigante e opressor.
Uma obra sui-generis justamente por ser boa por motivos errados, vale a pena ser visto para se compreender como a arte é, em si, algo tão engraçado as vezes. No final somos brindados com um filme que não é o que é, não é o que pretende ser, não é sequer bem feito… mas, ainda assim, um estranho cult, que na soma de tudo que poderia dar errado… deu, mas quem se importa? As vezes o erro é um acerto escondido.

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