A Fortuna de Ned

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A simplicidade como argumento no cinema é algo complexo; justamente por falar de ‘menos’ em um tipo de arte no qual supostamente e, ao menos na questão temporal é, digamos, essencialmente ‘mais’ – porque o tempo no cinema é constante, uma unidade que necessita da passagem para se fazer entender o projeto: ele nunca é o momento, mas o todo, um filme é um conjunto de momentos e, por isso, de certa forma nunca totalmente ‘simples’, um vislumbre, sim uma construção. Deste modo, optar por este argumento, ao menos no que eu imagino, é sempre uma possibilidade de erro magistral: o simples tende a ser ruim, ou ‘falta de’ alguma coisa (geralmente verba); porém, em alguns casos, o diretor acerta, como em A Fortuna de Ned.
Vá lá, o filme é irlandês, mas poderíamos muito bem contextualiza-lo na escola do estereotipo de ‘humor inglês’, como tantos outros filmes irlandeses e até escoceses surgidos ali pelos anos de 80 e 90; o ‘humor inglês’ é, as vezes, muito diferente do que o público brasileiro está acostumado, por focar sua graça, o motivo de suas piadas na disposição de complexos diálogos – alguns deles carregados de uma certa morbidez, como é o caso dessa película – e não propriamente na imagem; eis o que faz rir por lá: um significado montado numa disposição exata de significantes; mesmo que as vezes por imagem, ainda assim ela é o contexto onde o riso é buscado pela disposição do seu significado, de uma possibilidade ‘não vista’ no objeto em si. Enquanto o humor brasileiro é muito mais visual, muito mais explícito, como algumas escolas do humor americano, por isso, as vezes o público daqui não se adapta à ‘graça escondida’ dos filmes que vem de lá; mas é difícil não gostar da Fortuna de Ned, mesmo que não pela sua veia cômica, talvez por toda maneira como a simplicidade é executada pelo diretor e também como se dispõe de maneira sublime na narrativa.
O filme se passa num minúsculo vilarejo no interior da Irlanda; o velho morador conhecido como Ned ganha na loteria, mas morre ao saber da notícia; por isso, outros moradores vão inventar uma mentira e fazer um outro morador vivo se passar por Ned, para que a cidade possa receber o prêmio e dividi-lo… nesta pequena sinopse podemos nos deparar com a naturalidade da morte que o ‘humor inglês’ lida tão bem; porém, talvez pare por aí. No caso de A Fortuna de Ned, a morte não é representativamente o fim, mas o meio para o projeto: o grande desenrolar da trama se dá em como o diretor dispõe a história no anti-absurdo porque, afinal, todas as situações esperadas ao se deparar com um valor financeiro tão grande – o prêmio de uma loteria – são substituídos exatamente pela exploração da simplicidade dos seus personagens; na busca de conflitos, ou de intrigas, ou de qualquer problema possível diante de tal riqueza, todos são suprimidos pela trivialidade da comunidade do interior que, em sua simples vida, em simples motivos e em significados ainda mais simples, se depara com uma naturalidade além do normal ao lidar com o fato de que, em breve, todos serão mais ricos. Daí, nada é o que parece, ao mesmo tempo que é; todos nós, espectadores, afinal, entendemos a realidade da coisa, de que um vilarejo tão isolado e, portanto, tão ligado à comunidade, como em qualquer lugar do mundo, teria personagens como nesta película – a exploração da singularidade nos papéis é perfeita. A diegese da vida na ficção é substituída pela subjetividade do espectador que, ao lidar com a dúvida da obra – ‘o que você faria se ganhasse muito dinheiro e morasse numa cidade tão pequena quanto esta?’ – encara o filme como realidade: todos agiríamos como os personagens, afinal; e justamente na convicção ao perceber tão bem as pessoas simples, a simplicidade da vida e seus pequenos momentos no campo, o diretor acerta muito bem em seu humor tão leve: que o absurdo da situação é substituído pela falta de absurdos na vida cotidiana, sublimada em ser exatamente o que é e nada além daquilo… uma pequena e engraçada cidade interiorana.
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Vemos um trabalho muito acertado, também em especial, por outros dois grupos da equipe: a fotografia e a trilha; ambos, através da exploração estética da narrativa – ora mostrando planos abertos para dar a dimensão de isolamento daquelas pessoas em contraste ao visual do interior irlandês, ora na colocação de trilhas sonoras clássicas com elementos tradicionais com violino e flauta – ajudam a construir uma imagem necessária ao significado, que embora o filme tenha sido de fato gravado ali pelos anos 90, ainda assim, a vida do campo pouco mudou de um século para cá; portanto, a tônica do ‘fato novo’, no caso, o monte absurdo de dinheiro, por fim, pouco importa. O que dá valor aos personagens, às pessoas na trama é, por outro lado, como elas podem lidar com seus vizinhos de maneira melhor… todos um pouco mais ricos, claro, mas mantendo os mesmos vizinhos, na mesma cidade, com as mesmas pessoas.
Eis o grande acerto do projeto: para mostrar a falta de ambição, ele não é ambicioso, é certeiro; talvez por isso traduza tão bem o que espera; um filme, também como sua narrativa, simples, contextualizando seus significados em pequenos diálogos, nas pequenezas que ele pretende demonstrar; mas, nem por isso, menos genial: eis o mérito do acerto; no caso da Fortuna de Ned, ser simples foi um grande fator positivo. Vejam e se deliciem!
Uma observação interessante: o diretor deste filme, Kirk Jones, dirigiu pouquíssimos filmes na vida, não mais que seis; embora este seja o único com uma temática, digamos… mais europeia, totalmente diferente dos outros, um projeto sui-generis na sua carreira. Boa Tarde e até a Próxima Sessão!
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Um comentário sobre “A Fortuna de Ned

  1. É um filme simples e extremamente simpático, que por trás do “golpe” pela fortuna da loteria, o roteiro ainda toca em temas como amor, solidariedade e amizade.

    Abraço

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