Segurando as Pontas

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A graça do absurdo se torna ainda mais engraçada quando o absurdo ‘não é tão absurdo’ assim. Explico. Por que Segurando as Pontas é uma comédia tão boa? Justamente porque sabe ligar os dois universos, num realismo desconcertante de possibilidades que se concretizam em um plano normal, ao mesmo tempo que acaba por criar um paralelo com o impossível.
Vejamos se não é assim, ora, quando nos deparamos com toda sorte de ‘normalização’ ao longo da história, nos elementos narrativos – e este talvez seja o maior triunfo de TODAS as comédias envolvendo Seth Rogen, James Franco e afins – no qual transformam personagens extremamente caricatos em ‘humanos possíveis’: o traficante hippie paz e amor, o homem médio com um emprego ruim tentando se estabelecer com sua namorada, os estudantes da escola tentando comprar drogas, ou como todos estes estão dispostos ao longo da trama da maneira mais corriqueira que se pode imaginar, colocando o espectador justamente na atividade interpretativa ao lidar com ‘pessoas que talvez ele conheça’ na vida real… e sempre conhece; são figuras tão banais, inclusive, que não fosse o salto do absurdo, estes mesmos nem dariam sequer uma história interessante: o filme, por sua vez, não seria comédia, mas um longo documentário sobre a vida de um americano médio; Segurando as Pontas trataria de tudo aquilo que já vimos no cotidiano, na nossa vizinhança, ou em nós mesmos. Mas é aí que vem o salto…
Inserir este tipo de exagero da normalidade – inclusive como forma de ironia, a normalidade do filme é ‘tão normal’ que parece algo impossível – demanda que ela se complete em algo exatamente oposto; daí o absurdo. Mas também não qualquer absurdo e, sim, o ‘absurdo do absurdo’; se por um lado somos levados a nos identificar enquanto espectadores pela banalidade, do outro lado somos puxados por uma vórtice inexplicável de nonsense onde nada é, exatamente, realidade: ninjas, mortes descomunais, traficantes emocionais e atrapalhados, pessoas normais elevadas em super-atos, todo o oposto do filme é essencialmente uma negação, ou completo antagônico à primeira possibilidade sobre sua normalidade. E é exatamente aí que está a graça; se separados, estes elementos apenas seriam idiotas, ora como um documentário tedioso sobre humanos, ora como um filme de ação genérico com muitas mortes; o que faz Segurando as Pontas tão bom é a união dos dois mundos, o objetivo compartilhado em apoiar um no outro, da graça no confronto – personagens normais x atitudes impossíveis, atitudes impossíveis x personagens normais.

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É nesta correlação com o espectador que o riso se forma: se no primeiro momento somos convidados a perceber os personagens como semelhantes, no desenrolar espúrio nos damos conta de que nossa personificação dos papéis também se torna idiota, de um jeito cômico, ao ver ‘caras como nós’ fazendo coisas que nenhum de nós fariam e, totalmente improváveis, ainda assim, despertando um certo ar de possibilidade numa narrativa metafísica do ‘e se’… ‘e se eu conhecesse um traficante desse jeito e ele me colocasse em atitudes parecidas?’, como por exemplo, para situar.
Dentro disso, poderíamos destacar, também, o esforço destes ‘personagens normais’ para lidar com o absurdo justamente como se ele não existisse; outro ponto alto da obra; é aí, também, que vemos a identificação do espectador com suas vidas: por ser tão exagerado, seria ridículo dizer que ‘pessoas normais’ se portariam daquele jeito, de forma a perceber como algo ou alguém tão corriqueiro está impossibilidade de lidar com uma situação assim em seus costumes do dia a dia; novamente, o confronto entre o normal e o absurdo, o possível e o impossível e, para nossa alegria, um pouco mais de riso, de exagero na visão de um mundo que, a sua maneira, é também o nosso mundo; o exagero reforçado pela incredulidade do impossível.
A trupe de Seth Rogen, James Franco e cia. fez muitos outros projetos; mas, confesso, aqui mora o meu preferido. Num ode ao cinema de comédia da melhor maneira, com seus vícios e suas virtudes, Segurando as Pontas é um dos melhores filmes de comédia dos últimos tempos, inovando na medida certa. Vejam e revejam, boa tarde e até a Próxima Sessão!

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2 comentários sobre “Segurando as Pontas

  1. A premissa é a primeira parte são muito engraçadas, principalmente os personagens, mas considero que o filme se perde quando transforma a comédia politicamente incorreta em uma paródia de ação na parte final.

    Abraço

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