Birdman – ou A Inesperada Virtude da Ignorância

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Eu demorei pra ver e ouvi toda sorte de críticas opostas: ora gente elogiando, ora gente condenando; contudo, após minha primeira impressão, vá lá, estou do lado daqueles que gostaram; a sua maneira, Birdman é, sim, um ótimo filme.
Talvez a hiperbólica função de Iñarritu ao construir uma epopeia que e, auto-evidente, fale não só de Keaton como pessoa mas também da maioria das produções de cinema, acabe por si só formulando o mesmo efeito que a diegese da obra: assim como o ator/diretor da peça fictícia, em algum momento, o que encanta no projeto é justamente como o próprio Iñarritu tenta dar uma grandiosidade muito maior que o possível e, traduzida em acertos e falhas, se extenua em ser o que o filme transmite dentro da tela; a grosseira versão disposta na narrativa é quase autobiográfica e, embora não tenhamos assistido a maioria dos ‘bastidores’ de grandes produções… a incluir este caso, conseguimos imaginar que essencialmente se tratem das mesmas coisas expostas em Birdman: a arte ‘por dentro’ é em si feia, estranha, um produto exponencialmente destrutivo, egoísta, de modo que a obra vista não se traduz exatamente no esforço para tornar aquilo como se é.
A mecânica como Iñarritu se dispõe a contar disso, sobretudo ao escolher Keaton, um ator que viveu o drama do ‘grande blockbuster’ na pele, exemplifica a sua atuação majestosa justamente no esforço de contar um drama duplo, por assim se dizer: primeiro como ficção, pois narra a história que pretende do então ex-famoso astro de Birdman, Riggan, mas em segundo plano como ele mesmo, o ex-Batman, ex-referência e, aqui, ressurgindo consigo mesmo tanto no filme como na vida real; há falhas, claro, ainda mais pela escolha do diretor ao contar tudo numa espécie de plano-sequência que não é exatamente aquilo que deveria, com alguns furos aqui e lá entre problemas de conexões, ou no exagero ao valorizar alguns diálogos excessivamente maçantes e supostamente profundos – como o de Sam e Mike – e uma ou outra cena de humor que ajudam a compor um contraste de dificuldades e simplicidade, na comparação de uma veia cômica com uma tensa mas que e, se não fosse como apoio, um fundo, seriam apenas claramente encheção de linguiça; porém, como é caso da narrativa, mesmo estas situações acabam funcionando de certa forma a ‘dar corpo’ ao caos, traduzido de maneira diegética a, por isso, contar a epopeia de um mundo, um universo extremamente hermético tentando levantar uma peça de teatro as últimas consequências.

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O grande ponto é exatamente esse: Iñarritu podia errar – e errou em alguns pontos na trama, justamente porque estes ajudam a compor toda a excentricidade hiperbólica de seus personagens, que eles são errados, estranhos, destrutivos, dispondo da realidade de um diretor ao executar um projeto autorreferente… pois Birdman, como dito, não conta apenas a história de Keaton sobre Keaton e seu personagem mas, sim, do cinema em si, antes de todas as coisas do próprio Birdman enquanto produção; ele se torna um filme metafísico por explorar a si mesmo, ele olha de dentro, ironizando o interior para expor o exterior e, desse jeito, falar sobre o próprio Iñarritu. Birdman, afinal, quer voar na trama, mas também fora dela; e, como tal, um produto estranho diante da mente cansada – e as vezes louca – de um ator ex-famoso, que aqui e ali confunde sua realidade diegética com um imaginário duplo no personagem de si mesmo, o então Birdman; fora da ficção podemos pensar da mesma forma: há o duplo em Iñarritu, que tenta construir nesse filme talvez sua melhor narrativa, mas ainda diretor jovem, cheio de entusiasmo, brilha muito mais pela sua vontade do que propriamente pelo que se constrói; ele é o papel que descreve, como se olhasse num espelho e visse a si mesmo, por fim, Iñarritu é o seu Birdman.
Mas há longe da metafísica ou de interpretações grandes motivos para comemorar também seus acertos; como o subtítulo, a ‘A Inesperada Virtude da Ignorância’ recorre a momentos no qual o brilho da produção evidentemente se destacam, talvez sem querer, vá lá, mas ainda assim como acerto. A disposição de cores é algo sensacional, mesmo como elemento completamente particular, um mero devaneio estético, é lindo como o equilíbrio do fake-plano-sequência joga em sua diferença com cada passagem temporal disposta em diferentes cores; assim como ela, a escolha por Zack Galifianakis em um papel sério é acerto, também, por explorar um ator estereotipado em outro gênero de maneira a romper uma fronteira no qual nem o próprio ator imaginaria, mostrando que ele está e pode ser fantástico longe dos gêneros de comédia. Ou reabilitando Keaton, como também Ed Norton – tão sumido nos últimos anos em filmes decentes – a visão do filme é exatamente esta: acertos da ignorância, do acaso, da explosão de vontade. Talvez, quem sabe, mas o mais importante, sim, mostrar que Iñarritu está disposto a chegar num limite escuso de situações no qual ele mesmo é o filme em que conta, as vezes positivo, as vezes negativo mas, claro, não poderíamos deixar de dizer, não menos inovativo: Birdman é uma loucura em transe, não genial em sua plenitude, mas um ótimo movimento caótico de experimentações, alguns problemas e muitos efeitos positivos. Vale a pena ser visto e revisto.

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Um comentário sobre “Birdman – ou A Inesperada Virtude da Ignorância

  1. Filme metalinguístico de qualidade perto do genial. Achei não só uma pena como um desrespeito Michael Keaton não ter levado o Oscar como melhor ator. Ele merecia pois superou a si mesmo como ator.

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