A Visita

visita_2-750x380
Shyamalan é sempre alvo de polêmicas; questionado, aclamado, o diretor parece seguir – para uns – a sina de nunca ter superado sua primeira obra, o famoso O Sexto Sentido; na mesma medida, para tantos outros, é um cult subestimado. Eu, confesso, estou no segundo grupo; de todas as obras do Shyamalan, são poucas as que desgosto; o que vejo, ao menos na crítica, é o fato de atribuírem objetivos no qual nem o próprio diretor atribuí a si – e, portanto, não apenas uma crítca ao seu novo filme, esta é uma crítica da crítica… tal qual, também, o último trabalho dele funciona muito bem.
A Visita é uma mistura sublime do que Shyamalan já é ou já foi, com aquilo que ele ainda pode ser; uma agradável surpresa tanto no que já conhecemos do próprio, sobretudo o seu gosto e sua experiência em trabalhar no gênero do terror ou suspense, mas também uma viagem irônica e sútil na metalinguagem, tanto do cinema quando aqueles que o analisam, de forma a mostrar um novo lado do diretor, mais… digamos… ‘maduro’; ou ao menos diferente do corriqueiro.
Veja você e, como dito, a obra se trata de uma mistura: tanto do futuro quanto o passado, a opção pelo ‘found-footage’ – gênero recente que se tornou batido à exaustão de modo a se tornar incômodo – já joga isso na cara do espectador: que iremos ver mais do mesmo; será? Dentre a primeira polêmica, aqui já e, tanto para mim como para o diretor, formamos uma crítica sobre a crítica, afinal, a escolha é essencialmente para isto, uma ironia, uma grande piada que se desenvolverá em todo resto de bizarrice; enquanto nós e tantos outros analistas nos reviramos em tentar compreender o porquê disso, daí em diante o filme versa com o absurdo… já no seu interior como ferramenta, o ‘found footage’ não é apenas ‘desapresentado’, por assim dizer, como também destituído: Shyamalan NEGA ao filme o que ele é, afinal, não são poucos os momentos que até o mais desabituado espectador pode se pegar discutindo como ou porquê uma cena não pode ser ‘found footage’, seja pela física, ou pelo ângulo, como for, é neste primeiro ato cômico ao executar o impossível que Shyamalan já trás novo e velho diluídos em um só, o antes e o depois ao nos depararmos com um cinema onde a fotografia é o que ele já foi – um diretor tão amado pela inovação – ao mesmo tempo que o gênero apresenta o que ele nunca fui, articulado em cima de uma base contrastante – porque os dois não podem coexistir ao mesmo tempo – de maneira que a obra verse exclusivamente sobre o absurdo por isso, pois embora não possa ela existe ao mesmo tempo nos dois universos somados.
6610
A Visita é exatamente isso: filme de absurdo. Metalinguísticamente, principalmente, dentre suas supostas aleatoriedades – e principalmente por ter de ser o mais próximo da realidade, afinal, como todo ‘found footage’ – nada ali se aproxima disso. Exemplo ótimo vemos, além das questões técnicas de filmagem, em dois pontos distintos: 1) Na quantidade de personagens coadjuvantes que se mostram ‘querendo ser atores’ ou criticando o conteúdo do filme e 2) Na adequação totalmente sui-generis de uma personagem com pouca idade, a menina, não apenas estar habituada com os melhores conceitos do cinema, mas também se mostrando uma diretora competente acima da média – exposta com mais ironia na metalinguagem, ainda, na cena final carregada na piada da trilha exposta ao longo do drama pela própria menina. Portanto, A Visita não funciona apenas como terror ou suspense, embora também tenha seus lapsos muito bem construídos aí em mais um momento de impossibilidade através da construção prosaica do medo: como a reveleção da cabana em um motivo por vezes ‘idiota’, ou também a cena de esconde-esconde embaixo da casa, carregando a diegese da película de trivialidades por vezes assustadoras; não, seu grande mérito é dado ao ‘novo’ Shyamalan que, ao se utilizar do ‘velho’, constrói uma grande e constante piada nos seus personagens, atos, produção, confrontando a todos de forma a mostrar que muito se pode dizer do ‘cinema por dentro do cinema’, sobretudo colocado – novamente, de forma absurda – por uma garotinha de pouca idade ou por todas as impossibilidades de se constituir estruturalmente o que vemos e como vemos, de modo que e, justamente, respondendo a crítica da crítica, que caiu de boca em criticar algo óbvio: as impossibilidades da filmagem, onde o filme é magistral ao ser totalmente nonsense, uma grande e ridícula monstruosidade de erros programados.
À sua maneira, inclusive, podemos esquecer a própria história e como a narrativa se apresenta; talvez o elemento mais mediano, embora com destaques – como por exemplo a derrocada da avó que, dia a dia, se torna mais bestial – ela é constituída no contrário da construção técnica: aqui, o absurdo é o ‘novo’ Shyamalan ser muito mais sútil que o antigo; mesmo o tão esperado ‘plot twist’ que o diretor tanto coloca em suas obras, no caso de A Visita, é apenas uma supressão de fatos possíveis; o plot twist, ao espectador, é a negação de que ele exista. Do esperado final hiperbólico, um clímax com fatores rocambolescos, somos jogados a uma nova supresa: que o ‘novo’ Shyamalan pode, também, construir cenários narrativos no trivial – como as melhores cenas de terror da película, por sinal, o choque final é também no corriqueiro, no normal e não o que, possivelmente, a maioria dos espectadores esperaria; há na negação um fator importante, porque ela também dialoga com o absurdo; talvez no plot twist fosse o único momento que esperássemos um exagero habitual mas, ao não termos, somos novamente enganados, questionados, ultrajados em nossas esperanças, principalmente do que esperaríamos de tal diretor. O que nos mostra é a ‘possibilidade do possível’, mas isto também é algo incômodo, por vezes pior. E é nesta ferramenta que o diretor mais uma vez brilha, trazendo também para o tão questionado gênero de ‘found footage’ uma outra brincadeira, ao apresentá-lo como algo categoricamente ‘normal’, tal qual a realidade o é, sendo estarrecedor por não parecer, ou não querer ser, neste ponto, uma grande ficção.
Eu ainda tenho algumas questões sobre a obra, precisarei rever, mas, como grande defensor do diretor, acho-o uma de suas melhores; a nova face, a velha, a metalinguagem, o possível e o impossível, o corriqueiro e o absurdo, tudo ajudam a constituir em A Visita um filme que funciona muito bem; mesmo enquanto as críticas, como poderíamos colocar algumas atuações, ou até alguns clichês, vícios do terror contemporâneo, por ser irônico, por ser piada, a película pode apresentar o que quiser justamente por não ser extremamente ambicioso, ao mesmo tempo que joga com toda sorte de colocação dentro de se questionar através das referências ao cinema: se ele questiona, como pode ser questionado por questionar? Talvez o grande mérito, inclusive, seja o fato do ‘novo’ Shyamalan ser terror, suspense – como o  velho – mas também um questionador, porque permite ao seu novo trabalho ser um bom terror, mas também ótima crítica à indústria, somando em si por estes dois fatores o que eu havia dito: um diálogo de absurdo, de loucos, mas muito bem feito. Vale a pena ser visto e revisto.
Anúncios

2 comentários sobre “A Visita

  1. Porque vocês não dão uma olhadinha no canal do YouTube Cinemalizando? O cara fala de notícias e de curiosidades do cinema. Dão uma forcinha pro Anderson.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s