A Marca da Forca

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A despeito de alguns problemas óbvios, determinadas produções conseguem reverter a si graças a qualidade estrondosa que outros pontos compensam em seu caráter. A Marca da Forca é o caso clássico, longe dos faroestes mais primorosos e que, por isso, contaram com muito mais dinheiro no seu projeto, nesta película em específico podemos ver alguns problemas, falhas na atuação e sincronia ao longo de determinadas cenas – principalmente nas cenas de confronto, no qual fica extravagante a má atuação de certos atores – e, mesmo contando com alguns nomes como Clint Eastwood, nem por isso o filme é uma produção de qualidade indiscutível: quem quiser pode e vai achar motivos para se questionar, sobretudo no ponto que ressaltei. Mas, poderíamos  parar nossas críticas por aí.
Como dito, se encontramos problemas específicos, ainda assim, A Marca da Forca é também outro caso clássico comum em faroestes, uma exploração sensível da boa condução narrativa ao ponto de solidificar discussões morais – inclusive contemporâneas – de uma maneira tão sútil ao costurar relações lentas e detalhadas que, por isso, seus defeitos são substituídos pelas suas outras qualidades sensacionais; a ideia por trás de uma revanche no qual, primordialmente, coloca o filme como uma exploração de vingança resumida à pessoalização de um personagem por vezes tão repetido no cinema americano – o herói solitário, o ator reconhecidamente ícone heteronormativo em seu papel padrão – logo se transforma no detalhar de densos significados, colocando a trama como o ponto principal por revelar nuances finas em construir através de um objetivo simples, como a própria vingança, algo extremamente delicado nos pormenores estabelecidos ao lidar com a necessidade de ver e sentir a morte, sobretudo no sistema ao qual queremos acreditar como ‘justiça’ – a defesa das leis e dos organismos do Estado que o afirmam.
O grande trunfo de a Marca da Forca é, talvez, essencialmente a justaposição destes dois pontos: se inicialmente somos apresentados à ação e sentimos por parte que talvez a obra se conduza a isso, com o que vemos depois questionamos exatamente a mesma ação, afinal, como o personagem principal, não nos colocamos na chama de uma vingança ignóbil que a ele a situação conduz, justamente por encararmos pela narrativa o dilema proposto na película: queremos ver sangue ou então que de fato se cumpra algum senso de explicação e resolução para a justiça de um crime injusto? Não só isso, diante da impossibilidade de corrigir o primeiro ato – o passado, na diegese da tela – entendemos por meio disso a dificuldade de reverter situações futuras sem que elas repercutam na própria personalidade das pessoas envolvidas; como o caso do personagem principal e de seu romance, ambos levados ao extremo em ‘carregar seus fantasmas’ de modo a alterar seu relacionamento e seus encantos.

A Marca da Forca
O que levamos de A Marca da Forca é essencialmente o que ele diz e principalmente como diz; novamente, há seus problemas evidentes na economia por trás da produção, sim, sobretudo nos recursos claramente mal elaborados e indiscutíveis; porém, por mais que possamos apontar a falta de brilho em não ser esteticamente impecável como outros irmãos faroestes mais famosos, o diretor Ted Post carrega com uma leveza incrível um tema tão polêmico e atual – o linchamento sem conhecimento de caso, sem a presunção da inocência – de maneira que por ser um filme de quase duas horas, conseguimos esmiuçar cada lado e cada personalidade disposta em tal situação como uma unidade particular somada ao todo; por mais que se trate determinadas e inescapáveis  resoluções e que por fim já imaginemos o resultado dos atos logo no começo da trama, ainda assim, como espectadores somos conduzidos a ver este desenrolar de uma maneira ao mesmo tempo simples e complexa; simples por lidar com o sistema legal em uma discussão extremamente coerente em uma pergunta só: ele determina a verdade, o fato em si, ou que seja feita a justiça? Complexa por entender que esta pergunta é algo não só sem resposta, mas também um problema indissociável nas nossas sociedades contemporâneas. Ao que se percebe, nisto, é exatamente a separação do ‘herói solitário’: Clint Eastwood em seu personagem é um elemento, mas não ‘o’ elemento; o principal ponto por trás da ideia é essencialmente a discussão das identidades, da formação dos caráteres e de como moralmente estes reflexos acabam moldando distintas performances que corroboram os grupos e a cidade em si e, esta, por vezes, em completa falta de sintonia com qualquer tipo de evolução ou liberdade aos indivíduos: todos são vítimas do mesmo ‘sistema’, mesmo aqueles que sobrevivem, mesmo aqueles supostamente inocentes.
Vemos em A Marca da Forca mais um ótimo faroeste, outro que não se deve passar despercebido nem por quem ama o gênero e tampouco por quem ama cinema de um modo geral; um belo filme com uma discussão moral ainda mais bela, vale a pena ser visto e revisto inúmeras vezes. Boa Noite e até a Próxima Sessão.

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