Ex-Machina

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Uma das maiores surpresas e, sobretudo no aspecto rotineiro no qual se moldaram os thrillers, filmes de terror e semelhantes após O Chamado (americano) – quase como numa necessidade doente e sempre presente pelo ‘plot twist’; ou seja, aquela virada, surpresa final no roteiro no qual tudo se porta exatamente como nenhum espectador espera – é, ironicamente, achar um filme que inova por ‘não inovar’ e passar longe do clichê da virada; um artifício tão repetitivo que acabou por quebrar exatamente o e se esperava… o inesperado.
Dentre tantos aspectos estéticos ou na condução da fotografia, nada é exatamente um ode ao experimentalismo em Ex-Machina: a condução da direção fez questão de, através da segurança, garantir uma ficção possível dentro da certeza que não seríamos surpreendidos com absolutamente nada, ou ao menos não em doses exageradas, quando nos deparamos com a imagem dentro de uma possibilidade de futuro plausível; tanto a personalidade dos personagens, mas principalmente o que é exposto em imagem para nos conceituar a história, tudo é estritamente ‘pouco’ imaginativo – e, não como demérito, mas justamente na ideia de nos transportar uma ficção de possibilidades, confundir uma realidade de alguns anos do futuro em problemas que, talvez, serão de fato não apenas uma invenção, mas corriqueiros no nosso cotidiano longe da película. O(s) programador(es), o(s) robô(s), todos se mantém dentro de uma realidade tão plausível que, inclusive, empurra o filme em algum ponto longe daquilo que ele se inicia, ora transitando como ficção, ora como um drama futurista, dialogando com o espectador ao fazê-lo crer que o minimalismo estético é essencialmente algo que torna a obra não apenas crua, mas possível: sem máquinas voadoras, aliens e outros planetas, a construção do ‘irreal’ no filme se confunde exatamente com a nossa realidade.
Fosse apenas isso, poderíamos defender ou criticar a talvez (falta de) arrojo no diretor que, operando em um tema tão cheio de possibilidades, joga na mais segura das narrativas para construir um draminha que caminha até para o óbvio; mas, como dito, a surpresa é exatamente proposta ao ignorar a surpresa; quando somos conduzidos ao longo da trama e encaramos a linearidade das situações, tão logo imaginamos as possibilidades vindouras, acabamos por (tentar) calcular todas as alternativas possíveis ao enredo que, dentre elas, é inevitável passar longe de apenas dois caminhos: 1) o caso de amor pastiche ou 2) o plot twist clichê; dentre estas, embora a dúvida, vamos nos levando a acreditar justamente aonde o diretor quer nos colocar e, aí sua grande sacada, pois necessita da montagem simples, do ‘real estético’ – por assim dizer – ao nos ‘enganar’ com seu arco narrativo tão prosaico; o que nos surpreende é exatamente o que surge daí: a crueldade da realidade se torna chocante quando, ao final, somos enganados por não sermos enganados; nos deparamos com o ideal de tentar decidir entre 1) ou 2) quando dignamente o filme recorre a terceira via, tão mais óbvia e possível, mas ao mesmo tempo chocante justamente por isso, enfim, por ser ‘apenas ela’, um caminho reconfortantemente real e esperado: cru e cruel.

ex-machina
No mundo dos exageros, sobretudo no gênero da ‘ficção científica’, é difícil achar obras no qual nos apontem beleza – tanto estética como em retórica – ao nos mostrar a ciência como um espelho; Ex-Machina faz isso, pois nos aponta para um discurso no qual tentamos ignorar, ainda mais quando falado em ‘não-humanos’, robôs ou outra forma de humanoides, num propósito no qual a humanidade é estritamente o que é, ainda mais naquilo que constrói espelhada em si, de forma que ao vermos isso numa obra, na mentira da ficção, somos enganados justamente ao crermos na proeza estética do impossível: que as coisas não acontecerão como na ‘vida real’ porque se trata de um filme; há, porém, aqui, um caso extremamente bem colocado não apenas ao se apresentar como ‘realidade no irreal’, mas também por saber construir minuto a minuto estes caminhos – desde os conflitos entre humanos, as relações humanos x robôs, mas também o isolamento e a peripécia de um herói de mentira, no qual justificando-se no mundo tenta salvar algo que não está longe de si, uma ilusão ao apontar motivos para tentar se tornar melhor através de atos no qual não são nada além de egoísmo oculto. Vê-se, então, a face de nós mesmos: demasiadamente humano, Ex-Machina acerta aí; ainda que se trate de ficção, sua beleza é a surpresa de suprimir a mentira e trazer a realidade… e, por vezes, a realidade é tão ou mais rica que a ficção. Vale a pena ser visto e revisto! Boa noite e até a próxima sessão!

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