A importância do título original

bom_mau_feio

Texto que eu escrevi em outro lugar, apenas repassando aqui com alguns ajustes e correções:

‘A gente, consumidor, espectador, seja lá como quiser chamar, tem mania de suprimir a importância do título na obra; principalmente quando se fala de cinema, parece que aquilo só exerce função complementar, supérflua. Não à toa traduzem modificando os títulos aqui pro BR sem menor pudor, como se ele não representasse em si talvez a melhor síntese de tudo, a ideia do projeto antecipado em uma, duas, três palavras. ignoramos essa mudança porque faz parte da mesma objeção ao significado visual das coisas que se seguem: a gente já começa errando tudo como se isso não sustentasse uma importância à(s) forma(s), ao(s) objeto(s) e, portanto, que a estética não é retórica. só o que vale é ‘a mensagem transmitida’ e não vista, enfim, arte moralista. Se o filme ‘der lição’ podemos apagar os seus rastros que dão forma à obra em si.

Dentre tantos exemplos, acho que dois principais pra mim ficam nos faroestes clássicos: 1) THE GOOD, THE BAD & THE UGLY traduzido para TRÊS HOMENS EM CONFLITO. De cara dá pra notar que no original (italiano/inglês) somos levados a ‘entender’ os indivíduos justamente assim… individualizados e essencialmente como cada figura no seu espaço (artigo + característica) conduz a própria narrativa pela soma dessas diferenças: cada qual é um quadro pintado ao longo da história pelo que o título já demonstra, uma parte menor e diferente, mas também importante ao cenário. O título brasileiro, por sua vez, unifica a relação, dá ênfase ao conflito – que é solução, o fim – e esquece de ‘contar’ exatamente o porquê do filme ser grandioso ao desenvolver personagens & personalidades, quem são ou o que são aqueles homens, muito mais que um mero numeral.
2) THE MAN WHO SHOT LIBERTY VALENCE traduzido para O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA. Neste caso, ao suprimir, no original, não apenas se antecipa um ‘problema’ para eliminar o suposto epílogo – a morte do ‘vilão’ – jogando na cara que nada do que importa é isso, mas como se deu o ato e a consequência dele nos outros indivíduos; portanto, é importante suprimir nossas ‘morais’ do próprio vilão antes mesmo de conhecê-lo – que é o que não se faz na tradução, ela já deixa claro que é ‘o facínora’, que ‘mataram o facínora’ – para experenciarmos o contexto e principalmente as idiossincrasias daquele mesmo indivíduo: a ironia que já se anuncia na sua morte, no indivíduo chamado LIBERTY (liberdade/independência) e que, de fato, talvez seria uma figura muito melhor do que apenas conceituá-lo tradicionalmente como ‘mau’, ‘facínora’, porque a suposta maldade dele está exatamente ao ignorar toda ou qualquer relação de limites na sociedade; a sua maneira ele é, sim, um espírito livre, enquanto todos os outros são tijolos no castelo que ele pretende desmoronar.
Dá pra notar essa diferença em casos de acerto, também. Exemplo de The Exorcist/O Exorcista que e, original e tradução, determinam a mesma escala de valores: no caso deste filme, uma ideia no qual o protagonista é uma figura tão ‘longe’ da narrativa da história, mas tão imponente ao mesmo tempo, que pouco vemos mas muito sentimos seus atos. ‘O Exorcista’, de fato, aparece em pouquíssimos minutos da obra, mas, ainda assim, é quem dita o ritmo, que conduz ou abre caminhos. O nome poderia ser ‘O Diabo’, ‘Possessão’, entre tantas outras alternativas… mas, não, isso atrapalharia, inclusive, no que pensamos sobre como são dados os personagens: é importante o mistério não só da figura do mal, no caso de Pazuzu, mas também de ‘quem pode combater tamanho problema’, que, aí, entra o título: O Exorcista.’

E por enquanto é só, pessoal; o que vocês acham da mudança no nome dos filmes que adoram fazer no BR? Principalmente em filmes de terror, é bem comum botarem alguns subtítulos HORRÍVEIS. Acham que ajuda ou que atrapalha? Bom final de semana e até a Próxima Sessão!

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