Whiplash

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Eu tenho alguns problemas com ‘arte com mensagem’, sobretudo quando se desloca do objeto qualquer valor substancial a sua forma como uma possível ideia de que, se ele transmite algo, o rastro de seus significados enquanto algo na própria arte não importa em si; talvez seja difícil explicar, mas fácil reconhecer: o legítimo caso de filmes e livros, principalmente, que as pessoas reconhecem claramente ruindade estilística na sua concepção estética, ou problemas estruturais na demonstração de alguma importância espiritual para a obra, porém, ainda assim defendem como o caso de que ‘ensina algo importante’ ou que ‘a mensagem é relevante’. É uma proposta totalmente contra os princípios que eu imagino à arte e, neste caso, como dito, sem expressão espiritual alguma – se num conceito hegeliano de arte como objeto acima do natural, portanto, o seu primeiro valor ou motivo deve ser exatamente que o objeto atinja o espírito do indivíduo per se… não apenas como mensagem pois isso já é o esperado, mas como um todo, que a coisa em si se demonstre ao espectador de tal maneira que a apreciação seja justificada na unidade: que tal obra É o que pretende pela obra e não só pela mensagem. Whiplash, afinal, é um filme que sofre um pouco disso – mas como bom motivo, pois a mensagem se correlaciona de maneira estupenda com o objeto em questão, o resultado da obra.
Se pudéssemos ‘depenar’ o filme e esquecer ou se afastar de uma realidade suspeita no debate primeiro – que se os conservatório e a vida dos músicos é de fato como mostrada – o que enxergamos é um tour de force sobre-humano em busca de um significado para o próprio significado; a película nos coloca não a frente de um problema específico, ou seja, o relacionamento de um músico qualquer em aprendizado extremo, mas, sim, uma busca por vezes doentia para a perfeição – inclusive compartilhada. Doentia? Indago. É nisso que nos deparamos com a suposta questão da mensagem e porque o filme se sai tão bem: pois ao mesmo tempo que força não transparece o sentimento, embora no objetivo de se tornar um filme tão bem efetivamente tenha se constituído a necessidade de sobrepor uma mensagem. Whiplash é, cru, um filme de significados: que a perfeição não é tão somente um conceito a ser buscado, mas que DEVE ser buscado, ironicamente na metalinguagem da arte, um filme que especifica o trabalho sobre-humano de se tornar um artista com linguagem própria, ou ‘o melhor’ no gênero, através de um esforço muitas vezes inglório de sangue e suor; por fim, há mensagem, mas não habitual, Whiplash é certeiro exatamente por isso, pois destrói toda mitologia da inspiração ou das musas ao colocar um azedo em histórias bonitas: a arte se torna no filme desnudada do jeito que é, um objeto de criação e novidade, porém, ainda assim, feita com trabalho, processo e muita repetição.

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Mas o filme se torna melhor ainda ao entender que a mensagem desconexa da forma não constituiria uma boa obra e tampouco um resultado artístico interessante; é na exploração de todas as possibilidades e recursos do audiovisual que ele brilha; pois o esforço em delimitar exatamente isso, o trabalho ridiculamente cansativo do baterista, é transmitido pela equipe – principalmente na edição e na fotografia – ao consolidarem um show de imagens nas cenas em que mostram-no tocando; não bastaria a mensagem solta, para um bom filme, ao especificar a ideia do sofrimento por trás da criação; por isso que Whiplash faz questão de demonstrar através de longos minutos, das interpretações, dos personagens e principalmente de como tudo é montado e editado no corte final, o seu significado através da imagem. Curioso efeito onde um filme teoricamente sobre música, ou músicos, onde a música é o que menos importa; o grande trabalho está exatamente na imagem, no conjunto das informações dispostas através dos significados do próprio cinema: os cortes rápidos, a velocidade no toque, as cenas no qual se demonstram força e aflição em busca da tão estima ‘perfeição estética’ a um aprendiz de jazz através da própria física – o prato tremendo, as expressões de dor, a bateria sofrendo.

WHIPLASH
Note que, ao final, a mensagem torna-se o mote, ‘falar sobre algo’, ‘transmitir uma informação’… porém é em como, o método utilizado, que a película torna-se efetivamente interessante, ou até inovadora: na união ds pormenores, lidar com um significado através da utilização dos meios cinematográficos – a filmagem, a atuação, a edição – para transmitir quase que visualmente o que se pretende em palavras; a especificação do esforço como medida da perfeição se deixa levar no projeto exatamente como se espera, num conjunto extremamente visual de uma caminhada em busca de algo, mas não qualquer algo: a própria perfeição em si. Torna-se quase como encarar um quadro, visualizar a transição de pinturas através de um ideal em busca do quadro ideal. Como dito, por ironia, ainda que tornássemos a ver um filme sobre música sem sons, completamente mudo, o efeito por trás da mensagem teria o mesmo resultado, porque a tour de force – tanto em personagem como na metalinguagem – está essencialmente demonstrado naquilo que queremos ver. De certa forma a arte torna-se objeto dela mesma, ora como significado de algo, ora como ela mesma.
Ao longo do que somos apresentados, a jornada em busca de constituir um significado a busca torna-se também um sinal ao espectador que, salvo todas as relutâncias por este ou aquele personagem, identifica-se com o filme: a vida é por fim compreendida em igual, que o esforço merece ser glorificado naqueles que se dedicam por isso. Mensagem alcançada em um filme extremamente interessante, vale a pena ser visto e revisto! Boa tarde e até a Próxima Sessão!

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