Castelo Animado

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Mais uma animação do Estúdio Ghibli vista e, apesar de ser uma das mais recentes – não pegando a ‘época de ouro’ da companhia – confesso, até o momento a minha preferida. Conversando com um amigo em comum do Japão, alias, houve um ponto no qual considero importante para entender o status deste filme e do Estúdio em seu significado mais subestimado: como ele se refere às obras não chamando apenas de ‘animações’, pelo contrário, mas ‘filmes de desenho’. Talvez esta mudança de terminologia ajude-nos a compreender um dos aspectos mais interessantes dos filmes feitos pela equipe até então, sobretudo Castelo Animado como destaque entre tantos outros também positivos, justamente por exemplificar perfeitamente na melhor condição todos os pontos. Focando nesta mudança de terminologia, inclusive, podemos ver um dos detalhes mais cruéis através da não-aceitação, pensando especificamente nas premiações, ao reconhecer ‘animações’ numa categoria especial que não como ‘filme’ ou ‘melhor filme’, por isso, um caso à parte; quando este amigo coloca as obras do Estúdio Ghibli como ‘filmes de desenho’, está de fato corrigindo uma grande injustiça, pois os projetos do Estúdio são exponencialmente tão ou mais importantes para a história do cinema do que muitos outros filmes. Está aí uma pequena justiça histórica, daí a mudança necessária.
Mas, voltando ao Castelo Animado, é mister não deixá-lo passar em branco, destacando-o com a devida pompa; como dito, talvez o melhor caso especificado para justificar a mudança de termo, este projeto é a essência de todas as conversões do Estúdio em criar peças, narrativas, uma infinidade de elementos no qual tracem uma trajetória única e bela no que constroem como elemento artístico: a constituição de uma linguagem própria às obras que consolidem o Estúdio Ghibli como a referência de uma geração. De tantos pontos favoráveis, todos se sobressaem magicamente no caso de Castelo Animado como uma perfeita união de funções. A começar pelo motivo: todo filme do Estúdio é um épico, uma referência a construção dos heróis na literatura clássica, porém, realocados em um cenário de magia e romantismo exageradamente shakespereano; no caso de Castelo Animado, as virtudes por trás disso são quase táteis, pois não escapamos em nenhum momento deste exagero, enquanto espectadores, à narrativa na linguagem mais clichê (não como ideia pejorativa, mas perpetuação dos mesmos elementos em série) do projeto: ele apela aos acertos, cobre tudo num segurança de discurso para nada dar errado de maneira que isto pareça até artificial – categoricamente estudado para tornar um ‘anti-erro’ – que depois vemos não se tratar disso.
Notemos sem muito esforço que a história se constrói num romance impossível, exagerado em extremos – a garota pobre e trabalhadora apaixonada pelo bruxo amaldiçoado e galanteador -, num mundo distópico no qual não apenas a distância da relação, mas a própria instabilidade do mundo conspira para não haver união. Dessa distância de mundos, vemos a face do shakesperianismo… porém, em contrapartida, somos colocados a experenciar justamente no exagero um universo narrativo dos heróis clássicos: é na perpetuação do sentimento, quase como um destino possível no impossível, que convém observar o filme em atos: com o passar de cada um, a história transita do mais prosaico momento ao mais absurdo efeito de magia e situações no qual o todo apenas afirma o destino, de maneira a, exatamente, tecê-lo na impossibilidade de não existir de outro jeito senão como é. É como se os extremos precisassem se cruzar ao natural para existirem e que nada, nem a pior situação – no caso de Castelo Animado, uma guerra sem precedentes – pudesse impedir os acontecimentos, ainda que olhados constantemente como ‘impossíveis’ ou tão distantes. Eis o grande triunfo hiperbólico do Estúdio que podemos ver nesta película em particular: a conversão do cotidiano no mágico, do corriqueiro no absurdo e, deste modo, sem apelo moral – haja vista que não se conduz a obra em um ‘bem’ e ‘mal’ estritamente definidos como forma de exponenciar um herói e um vilão (ainda que eles estejam lá, claro, isto é sutil, leve), mas na construção de casos, como um todo, situações que falam por si – nos colocamos a vê-las de tal modo que não apenas presenciamos uma ‘mera animação’, sim, também a é – e não há nada de errado nisso -, mas um propósito grandioso ao se deparar quase como uma escultura em criação de detalhes constantes: o filme se torna uma obra tátil, moldada na passagem dos atos até o ponto em que possamos vê-lo como obra terminada numa resposta una: o filme É o discurso de si mesmo, uma grande retórica traduzido ao longo dos minutos que se somam uma resposta ao um enunciado, na resolução de seu contexto shakespereano e um final poético, belo, por vezes transcendental: será possível que as coisas acabem bem nestas condições? Mesmo depois de tudo isso, há o belo na tristeza?… na poesia da separação e união?

Nisto, podemos concluir que a trilha constituí, também, um papel essencial. Não apenas pela sua composição em ajudar na hipérbole dos sentimentos expostos graficamente – o piano dramático, por exemplo, que carrega na sua primeira aparição o contraste com a cidade num momento de melancolia ao urbanismo que será deposto para a entrada do clima bucólico do Castelo de Raul -, mas, sim, na formulação de um contexto bem definido na criação do próprio tema; em Castelo Animado, o main theme é formado por um crescendo no qual o ciclo representa exatamente a superação dos atos – que a cada passar de situação o recomeço é lembrado (também no nome, a música se chama ‘Carrossel da Vida’), porém inflado com novos elementos no qual a soma, por fim, é a resposta esperada ao que se construiu anteriormente. Afinal, nada do que está por vir seria possível sem o passado revisto e recondicionado.

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Por tantos acertos há um ‘esquecimento’ justo; no caso de uma animação – ou ‘filme de desenho’, como queiram – é importante considerar um aspecto estético, ou seja, os próprios traços da criação. Por isso, nem Estúdio Ghibli e tampouco Castelo Animado podem ser esquecidos ou sequer menosprezados. Se tanto em narrativa, quanto em história ou trilha, há um acerto sobre-humano no projeto, também no que se vê há um carisma sem igual. O jeito como o Estúdio opera não apenas em detalhes – pois nada é maltratado na composição dos cenários, do menor elemento ao fundo ao maior indivíduo em primeiro plano – mas também em física dos objetos que executam danças complexas, ou cores perfeitamente saturadas, ou criatividade em cenários com infinitos objetos, explora-se de maneira ainda mais visual o que já era possível apenas em discurso: somos levados a ‘entrar pelos olhos’ na criação hiperbólica de um universo fictício, justamente porque podemos ver com a mais minuciosa gama de detalhes tudo o que já era despejado de outras maneiras. Coloquemos nisso a importância final, mas não menos marcante: esteticamente, é como se o espectador estivesse admirando continuamente um quadro em movimento já pintado na narrativa – e que, talvez, ajude na composição dos heróis clássicos, justamente como uma pintura, o renascimento de uma forma de arte através de outra na sobreposição de ferramentas… o cinema como função (audio) + (e mais ainda neste caso) visual.
O que o Estúdio Ghibli faz, sobretudo em Castelo Animado é, em si, levar o cinema a sua condição de obra-prima indiscutível: todos os elementos são acertadamente bem constituídos, de tal maneira que o filme torna-se não-criticável… não há o que se falar negativamente, ou se tentar elaborar; é uma obra absoluta, um dos grandes clássicos do cinema de todos os tempos e você, que não viu, deveria ver agora mesmo! Boa Tarde e até a Próxima Sessão!

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