O Sétimo Selo

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O triunfo do cinema como arte audiovisual é o seu desejo incompleto de ser e não-ser pintura: é, pois, como tal, uma arte sobretudo de imagens – e daí o apreço fotográfico, a questão visual acima de tudo -, mas não como a mesma pois diverge através da perpetuação do momento: o cinema produz recortes no qual a passagem do tempo é essencial para sua execução, uma sobreposição constante de quadros (frames) onde o conjunto, a obra, só é possível ao ser suprimida e novamente recriada… enquanto a pintura é exatamente o contrário, numa afirmação e perpetuação de algo em si, a coisa é congelada – um segundo dito e exposto para sempre. Desse modo, é difícil que, mesmo em filmes destacadamente conhecidos pelo seu trabalho fotográfico, se mantenha inteiramente algo indiscutível ao longo de toda obra; dentre tantos, talvez nenhum seja constantemente tão impressionante como O Sétimo Selo.
Princípio e acerto: quando Bergman traz a morte num debate europeu alegórico, a ambientação através de um conto da idade média e todos seus vícios e virtudes locais expressos nos seus personagens quase shakesperianos, não é apenas a narrativa que ganha força por ser um elemento inovador – haja vista que, para época, o tema era polêmico de qualquer modo, falar da morte de uma maneira tão ilustrada, no cinema, era raro; seu principal destaque é essencialmente a estética, imagem, sua escolha enquanto diretor e equipe a, justamente, explorar a própria imagética da alegoria de maneira extremamente visual: não é preciso nenhum discurso para apoiar suas escolhas, olhamos a morte, o jogo de xadrez, o cavaleiro, os bobos, cenários antagônicos em toda sorte de natureza divergente – praias, penhascos, casas medievais, campos – na certeza de que todos elementos dão o máximo de si na criação enquanto objeto artístico principalmente possível pela visualização, a exploração estética no seu máximo feita pelo diretor ao criar um conto para se apreciar olhando; não somos apresentados e nem precisamos de palavras ao descrever em obra porque tal película se torna tão icônica, pois vemos ao longo de cada cena a definição no qual disse no começo: um grande trunfo enquanto arte visual… pois Bergman, ainda mais em sua época, se dispõe a significar o cinema em um novo ciclo tão grandioso de beleza no qual fica difícil achar parâmetros ou sequer obras parecidas… afinal, o que se compara à beleza de O Sétimo Selo? A ideia, o objeto artístico em si se torna apreciação: algo a ser visto e glorificado.

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Apoio certeiro: porém e também, a despeito da narrativa, não podemos negar a força do filme em contar/se tornar lenda pelo que volta a dizer; na escolha da alegoria no qual podemos interpretar todas intenções de confrontos morais, pureza social, conflitos pessoais, Bergman soube converter a estética apaixonante de seus personagens em discursos extremamente densos, dispostos na reinterpretação medieval a explorar, até então, uma arte no qual era muito mais comum na literatura, música, ou pintura; a obra é inovadora também neste ponto, criativa ao encarar o cinema de uma nova maneira na reinterpretação de velhos elementos conhecidos: os mitos no qual somos acostumados a ver através de antigos contos tradicionais, principalmente na literatura (e daí porque é tão shakespeariano), são representados na nova tecnologia possível com o cinema, incorporando o audiovisual como uma maneira de rediscutir e ressignificar aquilo que não imaginávamos; a sua maneira, Bergman ‘reinventa o velho’, por assim dizer, explorando em contos distantes do tempo, nos diálogos de uma sociedade já morta – e que bela maneira de falar sobre a morte – na reintrodução das perspectivas de um momento tão passado, tão escondido na história europeia, ao fazer uso da sétima arte como forma de poder fazer belas artes: O Sétimo Selo é, também, uma grande ‘ópera moderna’, um Richard Wagner de seu período, animado ao explorar na filmagem, na imagética, na música, nos atores, velhos personagens tão conhecidos da moral antiga: por ser tão teatral, faz a homenagem certeira as artes que já vieram, de modo a colocar o filme num vir-a-ser de desconstrução dos elementos baseados no tempo.

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Final e obra-prima: na convergência e principalmente na ousadia do diretor, vemos que sua criatividade é recompensada de tal maneira que não poderia ser diferente, pois o filme supera o cinema, supera o próprio filme e, por fim, somos apresentados em todos os motivos com um mito moderno: Bergman soube o que fazer ao trazer para uma nova época um tipo de conto antigo – porém atemporal – reencarnando velhas discussões de um novo jeito; O Sétimo Selo faz jus a estima, a legião de fãs e toda sua aura de clássico absoluto – um daqueles filmes indiscutíveis, um dos maiores do cinema. Bom Dia e até a Próxima Sessão!

 

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