O Tigre e o Dragão

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Rever O Tigre e o Dragão depois de tantos anos pode parecer uma experiência melhor do que o esperado; sobretudo porque, como alguns casos, o filme ‘envelhece bem’; digo isso com toda certeza: passado o hype dos anos iniciais, soubemos superar algumas das discussões necessárias à época – porém não tão interessantes – e que tornaram a avaliação do projeto pra lá de errada como um todo. Tudo isso porque, logo quando foi lançado, ou pouco tempo depois, grande parte da crítica focou sua análise em aspectos estéticos da técnica que, sim, havia muito de revolucionário em sua produção – principalmente o famoso uso dos cabos para os efeitos de pulos e afins -, mas que não davam dimensão real da narrativa da coisa; O Tigre e o Dragão sofreu, então, uma proposição errada ao ser lançado, visualizado, discutido como ‘um grande filme de ação’, suprimindo muitos outros detalhes em valor de suas revoluções estéticas ligadas à produção.
Não podemos esquecê-lo enquanto um grande filme de ação, pelo contrário, também o é, porém não é apenas aí que ele é uma peça maravilhosa; em sua narrativa, dentro da condição dos elementos esperados, o grande destaque está no diretor e sua equipe por proporem um belíssimo faroeste que, ironicamente, não ocorre no Velho Oeste e sequer em solo americano. Em toda sua representação ao conto chinês de e, por explicitar tantos estereótipos da sociedade chinesa de uns 100 anos atrás e lendas locais com suas instituições morais, a grande sacada está em, justamente, ligar estes pontos à estética do cinema mainstream, mas em especial o cinema  mainstream dos clássicos faroeste.
Notem como o desenvolvimento dos personagens é, em si, um emaranhado de narrativas que se cruzam entrepostas em realidades opostas, porém complementares, de modo que a sua composição com o cenário e as próprias situações tornam-se não apenas possível, mas também essenciais ao decorrer do drama; a solidão como aspecto de cada um, compostos na grandeza dos ambientes de tal maneira que e, tal qual, nenhum personagem está ‘completamente’ presente senão pelo que pretende contar por estar ali: é o cruzamento destas histórias, da solidão coletiva que transporta o maior clima de clássico faroeste ao filme, haja vista que todos estão, por isso, como peças em um cenário maior – daí inclusos na estética tão bela de uma sociedade chinesa que os prende cada um em seu motivo sem poder ‘ser o que querem’. O diretor e equipe montaram narrativas igual aos faroestes, pois não é senão pela dupla função tanto na estética do ambiente opressor, bem como nos seus personagens marcados por isso, que surge todo o desenrolar da trama em algo supostamente ‘pequeno’, mas que se mostrará grandioso – como todo grande épico americano que ficou famoso no tema.

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Não apenas aí, mas também nos quesitos técnicos da filmagem, como enquadramentos e o uso constante de campos abertos no qual a trilha acompanha a subjetividade da beleza nos mostram a tentativa de ser um faroeste longe do Velho Oeste: O Tigre e o Dragão é, sobretudo, uma exploração do cinema americano pop, também quase como ironia, subvertendo seus elementos mais clássicos a universalizá-los em uma retórica no qual ninguém imaginou que se poderia explorar, na beleza da China em sua sociedade mais hermética impossível – ainda que a narrativa seja visivelmente um espetáculo de ficção e de contos morais, serve também como memória de elementos no qual podemos demonstrar a diferença de laços americanos e orientais. Como as batalhas que, por isso, são removidas toda questão de revólveres e espingardas – símbolo máximo da conquista do Oeste americano – e substituídas por toda sorte de confronto com armas brancas e clãs de guerreiros orientais; notem que, mais uma vez, não apenas como função no discurso do ‘filme de ação’, estas batalhas também são esforço da narrativa em ser o cinema mais pop possível: a beleza estética num balé muito bem ensaiado que funciona de acordo com a cena ao explorar a beleza como elemento de discurso – pois todas as lutas fazem, também, uso dos seus cenários de tal modo que complementam o elemento humano lá presente… como sombras, salas, recantos, natureza, roupas etc.

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Por fim, ainda que como e necessariamente um grande ode à ação, ao cinema frenético na ideia da supressão de diálogos e exploração de mil e um efeitos e sequências absurdas, O Tigre e o Dragão chega também muito mais do que isso; como dito, um filme sobre relações humanas, explorando de acordo com a solidão necessária para um conto tão rico em beleza nos seus cenários e nos seus objetivos: revelar um lado extremamente exagerado, mas não menos real, de como lidamos com certas situações e nuances às sociedades no qual estamos inseridos; ele, afinal, não deixa de contar sobre lendas e aspectos da cultura chinesa (e é assim que garante um salto fantástico e diferente de tudo no seu último grande ato) – ainda que de maneira caricata -, mas, sim, mostrando que podemos e devemos ser mais parecidos do que pensamos – e como a arte pode suportar esta igualdade.

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