O Predador

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Há, aqui, um caso clássico de saudosismo positivo. Reparem no que eu vou dizer: o cinema de ação, sobretudo no seu boom dos heróis bombados nos anos 80/90 foi e é muito melhor que o cinema de ação atual. Como dito, parece saudosismo e, afinal, mesmo nos melhores casos, estes filmes não deveriam – ao menos – produzir nenhum tipo de efeito positivo na discussão artística senão pela própria lembrança afetiva. Mas há, sim, elementos artísticos no qual até mesmo a pior das películas na época respeitava e que simplesmente hoje, com os projetos a toque de caixa versando muito mais na velocidade de produção e no CGI exagerado e no infindável número de sequências ignoram. O Predador não é ‘um dos piores filmes da época’, pelo contrário… é, talvez, um dos melhores, mas exemplifica bem o que eu quero dizer.
Em primeiro lugar, porque ele desenvolve de maneira muito bem, mesmo com atuações duvidosas, uma relação muito profunda com seus personagens ancorados à narrativa; poucos são eles, alias, o que ajuda a fugir do MacGuffin desnecessário de mil papeis existentes apenas para morrer e gerar continuidade através da inserção de mais e mais furos absurdos; pessoas também morrem n’O Predador, claro, a maioria… mas dentro de uma temática que corresponde à própria explicação dos fatos e da continuidade na obra em uma lógica condizente: tudo se justifica em confirmar a imagem do Predador como Predador e, por isso, as mortes são elemento fundamental à trama, pois criam e potencializam o medo gerado na claustrofobia ao contrário, onde todos estão ‘presos’ à carnificina; não a um confinamento físico e sim a uma situação impossível e aterradora.
Em segundo lugar, justamente ancorado ao primeiro, há o uso extremamente bem feito do ambiente: como não havia possibilidade de CGI pesado na época, toda a construção da ação se dá essencialmente na exploração dos detalhes no cenário; veja que, como dito, a construção narrativa extrapola em si uma contradição… há um exagero constante da claustrofobia em todos os personagens, o que não poderia ocorrer na medida em que a história se passa na selva, livres, soltos mas, ainda assim, com a ideia do medo seletivo que transborda todos em uma situação de constante prisão e desconforto. Isso se forma  na maior parte do tempo pelo trabalho louvável de toda equipe, sobretudo na fotografia – muito ousada, alias, com planos e cenas incomuns para um projeto tão simples, valorizando ângulos no qual podemos ver a insignificância dos personagens em contraponto à grandeza da selva – construindo através das imagens a ideia do medo, sempre em uma mistura de exagero explícito nas mortes, mas também numa simplicidade de conjunto no qual pouco se sabe ou se mostra do próprio Predador.

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E então chegamos ao terceiro lugar: a figura do Predador que é, sobretudo, a de um vilão excepcionalmente interessante. Como em todo clássico claustrofóbico, a ideia não se passa através da imagem constante do vilão mas, sim, em como ele não aparece e mesmo assim se torna uma figura assustadora; tirando a batalha final, pouco vemos desse bicho sinistro… e é por isso que ele se torna tão horrível: pois a confirmação de toda sua habilidade em passar despercebido aos personagens, matando-os sem que estes percebam onde ele está, é também aquilo que o espectador pode sentir ao ver a obra, nos incontáveis minutos que lhe é negado o direito de ver a criatura que constrói todo o horror. Por isso, O Predador não transpassa apenas uma visão distante de um inimigo sem graça e vazio; o filme não é feito para explicitar um monstro maluco, mas SOBRE um monstro em um ambiente numa situação terrível, uma construção narrativa poderosa entre elementos complementares: bons personagens, uma ótima escolha fotográfica e como isso transforma, na visão do diretor, um grande motivo ao incluir lá um vilão que faça jus ao resto.

Quarto lugar: os erros são suprimidos pelas boas escolhas; como eu disse no começo, há, sim, algumas coisas duvidosas – como as atuações e, aí, incluir o próprio Schwarzenegger que na época não atuava nada bem. Mas é na potencialização de seus pontos positivos, explorando de maneira louvável tudo que o diretor sabe que pode dar certo, que o filme mostra sua grandeza; em contraponto aos filmes de ação modernos, a ideia agora é perpetuar a receita de bolo, constituir sempre os mesmos propósitos entre personagens vazios e uso exagerado de efeitos, de modo que a única coisa importante à obra torne-se uma especularização enquanto sua forma de construir a estética: que o filme é ‘bom’ por ser bem produzido; eis o gasto de milhões em afirmar cenas apenas com explosões e quebradeiras sem sentido. Na contramão destes casos, os projetos de ação antigos – exemplificados aqui em O Predador – mostram que havia preocupação na construção de elementos e temáticas explorados através da ambição em executar boas películas: o argumento do ‘filme de ação’ estava incluído em uma trajetória condizente à narrativa e não o contrário. Ainda temos exemplos atuais de bons projetos, claro, como o caso de Mad Max lançado ano passado… mas é importante dar uma olhada nestes filmes do passado e restabelecer o bom saudosismo, sobretudo para notar como a indústria do entretenimento mainstream caminhou BEM errado nos últimos anos, com uma série de filmes, em sua maioria, pra lá de duvidosos. São poucas, talvez nenhuma, película que chegue aos pés de uma boa diversão como é O Predador. Boa tarde e até a Próxima Sessão!

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