A História Sem Fim

never-ending-story
Revi A História Sem Fim estes dias e calhou a ideia de comentar por aqui; uma nota rápida, antes de começar, é o elogio às obras de ficção dos clássicos nos anos 80 e 90, principalmente e, pela falta de recursos, não se utilizarem do CGI em todo e qualquer elemento da produção: um dos grandes charmes destes filmes, sobretudo os mais famosos, como o caso de a própria A História Sem Fim é, sim, o fato deles serem fisicamente palpáveis, do espectador poder ver e ‘sentir’ a profundidade dos personagens de uma maneira quase tátil, haja vista que a maioria – ou todos – foram feitos do jeito clássico, com robôs, enchimentos, manequins e afins e toda sorte de efeitos que permitem ao ator real e aos personagens fantásticos estarem no estúdio no mesmo momento da gravação. Me incomoda, ainda hoje, com a tecnologia de animação muito mais qualificada, que os diretores optem pelo fácil: de uma maneira ou de outra, infelizmente, ainda notamos que o tratamento com CGI não emite a mesma realidade que os objetos que estão lá e são filmados pelo método mais tradicional; principalmente pelo sombreamento e movimento, o CGI ainda é uma ferramenta um pouco falsa demais, o que torna as cenas extremamente estranhas em algumas passagens, pois podemos perceber visualmente – e sem muito esforço – o que é real, gravado, e o que foi produzido totalmente em computador, como se certos elementos não conversassem entre si. Mas, ao que interessa, seguimos…
A História Sem Fim é, talvez, a maior obra de ficção existencialista que já vimos e não apenas no cinema, mas em todo tipo de arte no geral; entre tantos outros projetos, alguns inclusive mais habituados a um tema tão denso, este filme em uma aventura fantástica, por hora considerado como infantil, produz uma das maiores discussões sobre um tema tão complexo e abrangente, em sua maior parte conciliando um pesado debate com este lado mais leve da ficção para e com crianças, constituindo um rico trabalho entre seus motivos e seus resultados. Dentro da grande sacada, a história começa já antes de se tornar discussão mais acalorada um sensacional projeto metalinguístico: por contar a história dentro dela mesma, o que se apresenta é inicialmente o contraste entre a diegese e a metadiegese do filme, disposta num diálogo muito belo no personagem Bastian – que se faz então como o real, mas também um real que não o é, pois ser personagem da obra – e a sua leitura e aspectos sobre o mundo da Fantasia – ali, então, a aparência em si, a ficção tanto quando em sua matéria como em seu motivo; pois ela é exatamente ficção no filme visto mas também na história contada -, no que a dicotomia desta situação produz em si um diálogo no qual todos os elementos nas diferentes camadas da narrativa formam a construção de uma terceira diegese na soma de ambos: aquilo que chega ao espectador é, portanto, a fantasia contada através da fantasia vista em Fantasia (o mundo da película). Diante disso, já percebemos sem nem comentar a respeito do projeto que a ideia é, justamente, levantar o debate da aparência (ou não-real) naquilo que é jogado ou confrontado com o real, pois o propósito existencial, no caso da história é, antes de tudo, validar um momento no qual ambos coexistem um pelo outro: a ficção que necessita da realidade na crença da mesma, de modo que toda criação só pode ser vislumbrada se, claro, romper a barreira da ficção; pois nada, nem a fantasia, não pode existir senão pelo que se crê – ou se imagina – na realidade.
neverending_story_tortoise

Notemos que outro grande mérito da obra é, desde já, utilizar-se dos elementos que pretende debater justamente com os nomes deles mesmos: o mundo de fantasia no qual Bastian lê e conhece a história de Atreyu é a Fantasia, a princesa deste mundo, que é uma menina, é chamada de Princesa Menina, a morte – na pele de um bicho parecido com um lobo – é a Morte, o nada, o grande vilão, é o Nada e assim por diante. Ao não tentar elaborar esta especificação por metáforas ou outros nomes, embora até cruel, a obra vai direto ao ponto: todos os seus debates são essencialmente aquilo que eles querem dizer; daí em diante, a diegese e a metadiegese, eternamente antagônicas, rompem suas barreiras naquilo que podem pelo resultado da soma: uma diegese analítica nos contornos possíveis de sua retórica existencialista com o que se apresenta ao espectador real. A nós, espectadores, criaturas tal qual o personagem Bastian, somos colocados ao confrontar dilemas muitas vezes mais difíceis do que parecem, pois como esperado, terminamos como parte ativa do filme: ele fala por nós sobre nossos pensamentos; reparem que o grande vilão do filme é o Nada… e o Nada, como dito, é exatamente isso na ficção mas também na realidade: nada – ou, em uma das passagens mais emblemáticas do filme, quando a Morte reproduz um dos diálogos mais belos da história, ‘o nada é o tudo vazio’. Brilhante pois, daí, percebemos o quão incômodo é o nada não apenas enquanto Nada da narrativa, mas, sim, também em nós, espectadores, em todos aqueles que por fim acabam de frente com este problema: como nada pode destruir tudo, afinal? Um grande e cheio vazio de exatamente nada pode ser fatal, pois não-existir é ainda pior que a existência e, desta forma, ser consumido pelo nada é ainda mais maligno que qualquer problema possível em tudo.
A ausência de inimigos transborda um incômodo exatamente pelo efeito que se mostra, pois o grande inimigo proposto e, não apenas uma figura de linguagem menor, uma criatura disposta a destruir toda aparência – e, portanto, a Fantasia – é não uma coisa, um objeto, mas o nada: a ausência completa de qualquer coisa. Na inversão do filme, muito bem feita, o Nada – que é exatamente o nada, não pode existir – existe! Não apenas existe, como é sua existência que corrobora o fim de tudo. Em outras palavras: nada pode destruir tudo.

Reparem que o jogo de semântica não apenas tem efeito como significados embaralhados, mas é na linguagem que, tanto em A História Sem Fim como na própria filosofia por trás do existencialismo, o filme se fortalece e justifica toda sua densidade; ainda mais quando rompe a barreira diegética, justamente em outra passagem emblemática, dispõe de sua interpretação ao colocar fim no Nada fictício também como ferramenta da realidade… pois a própria película diz: Nada pode destruir a Fantasia e, novamente, invertendo a conclusão antecipada, diagnostica um belo resultado possível como resolução além da obra: pois Nada é criado nela, ao mesmo tempo que nada pode destrui-la se não for além dela. Deste modo, o existencialismo do filme é, antes de tudo, um contraste entre o que não é e o que é real: pois a aparência, no caso de Fantasia, é a narrativa no qual o filme propõe sua fuga, ao mesmo tempo em que toda história se passa por mostrar que, na mesma, nada (ou Nada) existe senão pelo que fazem dela no real; pois a fantasia do filme, impressa no nome de Fantasia, é apenas possível ao que se coloca diante dos olhos de Bastian – também em diegese, mas como imitação do real -, onde o menino então a constrói ao ler o livro: o Nada é, portanto, um inimigo real, haja vista que está disposto a destruir exatamente o reflexo do não-real, possível na criação do impossível, que é então uma fantasia. Não destruir o Nada tem efeito, também, naqueles que não estão lá: pois nada destrói tudo, sempre é bom lembrar.
neverending-storyartaxswamps

Desta forma, A História Sem Fim não é apenas sobre o que a narrativa pode enquanto o que se narra mas, muito além, sobre aquilo que também é possível no que é narrado pela narrativa e o que resulta de ser narrada; quando a película se aproxima de um debate atemporal, justamente ao expor seu vilão Nada – que, não podemos esquecer, é o que é: o nada – observamos a tentativa de quebrar uma barreira da ficção: a obra demonstra em si um aspecto além daquilo que se apresenta na diegese fantástica, pois o nada – e tudo o que se gera dele, ironicamente, tudo que o nada ‘não é’, pois ele é objeto vazio – só é possível ao colocar o espectador também como parte da obra: a sua maneira, A História Sem Fim fala, também, sobre nós, daí porque é existencialista e tão impactante, pois está intrinsicamente ligada aqueles que a observam; pois é na capacidade deles, espelhada no personagem de Bastian – o real – que observamos a resolução dos inimigos ainda criados na diegese; pois o Nada só é derrotado em sua interpretação totalmente retórica, ao seguir o caminho explicado acima onde confrontamos sua existência diante da aparência – Fantasia – no qual o mesmo se coloca como criatura, mas também como anti-criatura ao se deparar com a existência e a não-existência, pois o nada existe justamente ao negar existir: ele é apenas quando nada pode não-ser, quando anula tudo que é – e nestes conflitos no qual a realidade acabam, por fim, afetadas por nada, o vazio absoluto da coisa.

Neste aspecto, A História Sem Fim apresenta debates muito mais sérios do que aparenta; é claro, há uma doce estética ainda da ficção infantil, com criaturas amistosas e fantásticas e algumas cenas dramáticas muito bem construídas, como a morte do cavalo de Atreyu… mas é na maturidade ao lidar com crianças em um debate muito mais profundo que o filme cativa, demonstrando em poucas palavras e diálogos maravilhoso o incômodo do vazio existencial: o Nada é nada, afinal, um todo disponível na ficção e no real; pois e, mesmo com tantos temas difíceis e tão bem elaborados, há todo o apreço por, ainda assim, ser feito ‘para crianças’; e é nisto que surge não apenas um dilema, mas uma bela mostra de como podemos não infantilizar um espectador que normalmente é tratado como tal: a obra está disposta a discutir com o todo, adultos e crianças, da mesma forma sobre as mesmas coisas, esperando que todos elaborem pensamentos e opiniões na apresentação de seus pensamentos através da narrativa, ainda que cada um calhe em ter uma visão, é na multiplicidade que entendemos justamente a aparência de Fantasia: pois ela é, existe enquanto é vista, afirma o tudo, ou seja, aquilo que derrota o Nada, ao mesmo tempo que ela só pode existir justamente no espectador, naquele que percebe a aparência, que crê na ficção como propósito de tudo, do anti-vazio de seu grande inimigo; e, então, pouco importa sua idade ou maturidade – pois a fantasia de Fantasia é essencialmente o impossível: mostrar ao mundo que nada pode ser, portanto, maior que tudo. A inversão da vitória naquilo em que o existencialismo do filme quer mostrar: a dicotomia entre o vazio e o cheio, entre ser e não-ser onde, claro, ser é mais importante que nada. E, também invertendo a obra, que o tudo – nós, realidade, não-real etc. – somos o que somos exatamente por não sermos nada. ‘O Nada não existe’, deixa-se claro em outro momento da obra, justamente porque ao negar o vazio é que ele se torna vazio. E não existir nada é, exatamente, que se possa existir tudo. Boa Tarde e até a Próxima Sessão!

Anúncios

Um comentário sobre “A História Sem Fim

  1. Interessante a análise! Sempre achei que esse filme ou principalmente o livro daria uma ótima tese académica! O que eu acho mais interessante no filme é que ele é uma viagem dentro do próprio eu, dos próprios sentimentos. O pântano da tristeza, você deve lutar contra sua própria tristeza. Nas esfinges, lutar contra o próprio medo. No espelho mágico, você é capaz de ver quem é dentro si. Morla, a tartaruga, simboliza o pessimismo. Já falkor simboliza o otimismo… O mar das possibilidades, de onde ingiram podia avançar.. Enfim, o filme apresenta uma originalidade e uma riqueza de ideias sem igual…. Ainda assim, acho que o melhor do filme são as musicas! Verdadeiras obras primas!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s