The Witch

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Nenhum outro filme produziu um afã tão grande nos últimos anos, no cenário do terror, como esta obra. Talvez apenas Atividade Paranormal, mas por motivos completamente distintos. Enquanto Atividade Paranormal explodiu sobretudo pelo baixíssimo custo e alto lucro, justificado como um ‘projeto de custo quase zero’ que ascendeu tal qual grandes blockbusters milionários, The Witch é, por sua vez, uma obra mais completa e solidificou-se no seu argumento base: ainda é cedo para colocá-la no panteão das obras-primas do gênero, mas, ao menos, podemos classificá-la enquanto algo extremamente inovador, na contramaré da atualidade. E, nada de exagero, a película é, sim, EXTREMAMENTE inovadora – ainda mais enquanto refresco e quebra de paradigmas no qual o terror se prendia desde 2000 ou por aí, com o lançamento de O Chamado americano.
A história, em suma, não é nada demais: uma família da Nova Inglaterra, na época da colonização, é expulsa de uma aldeia por causa das pregações do pai, um árduo católico que se coloca como um extremista entendedor da bíblia; a família, em regime extremo também em virtude das ideias paternas, acaba por sofrer um série de mazelas longe da vida em comunidade e morando numa zona limítrofe com uma floresta supostamente amaldiçoada, como o sumiço dos filhos, a colheita que não dá certo, filhas rebeldes, bruxaria e por aí vai. Uma tragédia anunciada desde o primeiro minuto: uma conversão de toda sorte de estereótipos clássicos de um conto atribuído à outra época e que hiperboliza elementos já aterrorizantes em si, sem precisar dar mais detalhes. Se pensássemos neles deslocados e soltos, isolados, entenderíamos o porquê da coisa já ser diabólica; afinal, a bruxaria é um elemento discutido ao exagero no gênero do terror, famílias religiosas extremistas também, o isolamento de ter de abandonar a sociedade também, florestas, animais, crianças rebeldes idem; nada se salva ao crivo da lógica do mais no mesmo em The Witch, ao olharmos num primeiro ato: por isso, já em sua simplicidade de escolhas no argumento à história, ainda assim, em contraste com o próprio conceito de simples, observamos que, justamente na união, o projeto se trata de um explosivo uso daquilo que já estávamos acostumados… tudo lá dialoga para a coisa transformar-se em clássico óbvio sem muitos problemas; enfim, um porto seguro na escolhas ao longo da história. Porém, o grande triunfo vai além, justamente ao elaborar estes elementos num arco narrativo, digamos, bizarro e daí inovador.
Talvez o maior momento da obra seja apenas um, sem discussões maiores, ainda que as atuações sejam boas, principalmente a do pai e aquela voz extremamente grave – dando um ar ainda mais macabro e desesperador ao personagem -, ainda que os cenários sejam muito bem constituídos – a reconstituição das indumentárias da época é muito bem feita -, ainda que a história, como dito, seja muito bem montada nos seus portos seguros do horror, ainda que os diálogos crus e lógicos à personagens daquele período sejam muito bons e realistas também nas escolha de palavras pouco utilizadas no presente, nada disso supera a grandiosidade na direção narrativa da coisa; o grande segredo do projeto é, sobretudo e nada mais que isso, um elemento que converge entre um pouquinho de cada um destas resoluções bem amarradas ao demonstrar o poder narrativo em unir todos numa sucessão de acontecimentos incômodos e constantemente angustiantes.
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The Witch não é um terror convencional e isto se sobressai logo de cara, como dito, ao romper alguns estereótipos clássicos no gênero pós-2000, mesmo que faça uso de tantos outros estereótipos na sua história; portanto, não veremos os sustos corriqueiros aliados aos efeitos de áudio, as criaturas bizarras cheias de efeitos especiais, criancinhas fantasmagóricas com mensagens do além e nada do tipo. Porém, ele é horrivelmente assustador de um modo que não se possa descrever senão por um incômodo que permanece em sua realidade aparente ao afastar-se da diegese para ser ‘o mais factível possível’: é tudo tão ‘cru’, tão normal, tão possível, que a ideia por trás de poder ver aquilo diante dos olhos da ficção – e, claro, com alguns elementos claramente fictícios – acaba por trair o espectador ao distancia-lo do difícil e tornar tudo tão cotidiano. O filme é, ironicamente, fácil demais, o medo é simples demais, real demais, algo que, mesmo fora de nossa época, haja vista que não vivemos mais como colonizadores católicos malucos pregando por aí (ao menos a maioria), ainda assim assusta: nos colocamos no local dos personagens e sentimos cada qual dos acontecimentos banais como se fossem nossos próprios medos, frustrações e horrores; todos sufocados por uma certeza em que algo invisível porém aterrorizante está em volta… mas não podemos fazer nada a respeito. The Witch, então, torna-se um grande drama fantástico, impossível e aterrorizante, por mostrar no outro o que somos nós: o medo existe, para todos, ainda que neguemos. Deste modo, a narrativa nos leva adiante no que vemos aflorar nesta simplicidade, justamente o poder ao contar uma história modesta e faze-la algo tão gigante, principalmente no trabalho do diretor, ao confiar no ‘menos é mais’ do terror na obra para assustar seus espectadores exatamente sem dar nenhum susto de fato; daí o filme engrandece: confia no diferente, no anti-lugar comum para fugir da normalidade numa época no qual nos acostumamos com o terror do choque, do exagero no ato e na sonoridade. Talvez não grandioso como obra-prima porque não é como se isto já não tenha existido, pois não é essencialmente algo novo na história do cinema do gênero, mas, sim, depois de 2000, tornou-se cada vez mais escasso. Então é no mínimo ousado que o diretor faça um uso tão bom de uma nostalgia boa.

Enquanto aos poucos somos levados a absorver o choque de não estarmos preparados ao prosaico, à morte do exagero ao não vê-lo em quase nenhum momento, percebemos que a narrativa também incomoda por outra coisa posterior a própria obra: não é apenas o detalhe, a leveza dos momentos de terror em situações corriqueiras, mas o fato de que saímos do filme convertendo exatamente a diegese da película com nossa vida; o filme torna-se ainda mais incômodo após vê-lo, porque, ao afastar-se da imagem no primeiro momento da obra audiovisual, da produção em si, nos pegamos pensando em cada detalhe que engrandece a expectativa enquanto uma série de pequenos atos também comuns à realidade. The Witch brilha, ironicamente, mais ainda no que não-é, no que não-é visto; nos levamos a ver e sentir o terror oriundo da obra muitos minutos após a mesma, pois ela acaba por tornar-se ainda mais assustadora na negativa de ser: uma obra inteiramente e implacavelmente horrível no pensamento e não propriamente no conteúdo. Somos levados, dragados pelos acontecimentos após digeri-los e nos darmos conta de que, afinal, o que incomoda aos personagens em obra também acaba por nos incomodar fora dela, lembrando de cada momento, cada peculiaridade e como aquilo, também, acaba por nos assolar em pensamentos. Daí The Witch ganha um destaque até inesperado, pois, sabendo ou não, querendo ou não, desenvolve um diálogo macabro como poucos filmes conseguem, ameaçando a experiência do espectador de maneira que nenhum espectador pode esperar, justamente depois de ver a obra e não nela enquanto momento presente. O silêncio é incômodo, a solidão, a expectativa, os acontecimentos, enfim, colocados enquanto um espectador ativo, por fim, mergulhamos no discurso no qual leva os personagens aos problemas da trama: a barreira da ficção finda, morre, rompe… pois, afinal, o que ataca a sanidade daqueles na diegese também pode nos incomodar fora dela. A ‘realidade’ do normal é, em última instância, não um objeto apenas cinematográfico, um elemento do filme, mas também nosso. Portanto, se é nesta desarmonia que os personagens da obra acabam por afundar-se em mágoas e problemas, acabamos também, pela narrativa, posteriormente pensando, questionando a nós mesmos: por que não comigo? Não é errado vermos isso, se poderia ser conosco?

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Enquanto confiarmos em filmes como este, podemos ter certeza que, ao seu jeito, o terror pode continuar reascendo entre um e outro momento de grande brilho, uma quebra de paradigmas no qual tornem certas películas como momentos geniais da arte – o suspiro de criatividade no diferente, embora nostálgico, ainda assim narrando contra a correnteza; incômodos, sim, mas brilhantes. Boa Noite e até a Próxima Sessão!
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