Testemunha de Acusação

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Uma das maiores habilidades do tão aclamado diretor Billy Wilder é a sagacidade ao transformar personagens e situações simples, eventos prosaicos, num emaranhado rico de argumentos para desenvolver o universo no qual estão os seus personagens. Neste filme, novamente com um toque de bom humor, ainda que se trate de um tema mais sério – como uma investigação de assassinato -, baseado num conto de Agatha Christie, a mão pesada do diretor prevalece… e para o bem.
Testemunha de Acusação é uma mistura de tudo: muito suspense, com um pouco de trama policial, um drama amoroso e pitadas de humor, todas transformadas ao longo dos minutos em que vemos o famoso advogado Sir Robarts e seu escudeiro Brogan-Moore, ajudando a salvar a pele de um acusado de assassinato, supostamente de maneira errada, o senhor Leonard Vole, com uma relação misteriosa com sua companheira alemã, sra. Helm Vole, uma das suas poucas testemunhas para garantir-lhe um álibi e que não parece muito empenhada em salvar o próprio marido da cadeia; dentro disso, o desenvolvimento da história passa por uma narrativa no qual muitas reviravoltas e lembranças nostálgicas recriam a condição para cada qual das pessoas acaba por encontrar-se na sua atual situação: vemos o passado e o presente e como cada um influencia diretamente em favor das personalidades, da mesma forma que estas personalidades, sobretudo do advogado Robarts, com sérios problemas de saúde, é ainda mais hiperbolizada num exagero cômico para demonstrar certos hábitos corriqueiros de seu comportamento tipicamente inglês.
Não há embolo ou peripécia em nada sobre o projeto, tampouco no que conhecemos de Billy Wilder; a grande graça, para o diretor – assim como o espectador – é deliciar-se com as situações simples; por isso, ainda que com um suspense digno da grande cabeça de Agatha Christie, quando posto nesta obra, num projeto audiovisual, os triunfos são sobretudo nos elementos ‘menores’, por assim dizer. Como o comportamento explosivamente cômico e exagerado de Robarts, extremamente inteligente mas ao mesmo tempo extremamente intransigente com seus empregados – uma verdadeira equipe contratada para cuidar de sua saúde; na trivialidade, vemos um genial advogado bolar um caso pra lá de complexo, sem muitas provas, favorecendo-se dos detalhes… porém, na outra ponta, vemos este mesmo advogado, nas mais simples situações, bolando mil e uma artimanhas para driblar suas limitações impostas em virtude de seus problemas oriundos da saúde frágil, tentando a todo custo fumar e beber, em desacordo com as orientações médicas impostas. Neste exemplo, talvez o melhor, entendemos em como o diretor sagra-se um grande contista na dualidade dos universos complementares: recria personalidades que se impõem enormemente na tela, de modo que a menor situação possível acaba por torna-se um rico segmento de possibilidades e contos, os motivos no qual cada um de seus personagens são grandes, expressos no que o espectador acaba por interessar-se ao ver não apenas o mais rocambolesco dos casos mas, sim, a situação na totalidade – inclusive nos seus momentos mais prosaicos, em desacordo com a magnitude do suspense.
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Note que a grande causa por trás do conto não é apenas o próprio conto em si, mas exatamente nos detalhes no qual a narrativa dispõe ao colocar-se como algo simples, porém extremamente bem bolada; outro ponto que exalta isso é a concepção do tribunal – e daí, também, o trabalho da equipe ao recriar um cenário tão hermético e perfeito: os detalhes são tantos que transformam a sequência de cenas que lá dentro se passam não apenas num argumento despejado e vago sobre o assassinato, cheio de jurismos e distante do público, mas em todos os aspectos que constituem uma soma de detalhes no qual se complementam em apoio um ao outro pela execução de atos, por vezes, corriqueiros; a cena de Robarts mexendo nos comprimidos, por exemplo, demonstrando sua atuação ao concentrar a experiência em elementos tão ínfimos para influenciar diretamente na sua capacidade discursiva, um ótimo exemplo de como os pormenores minuciosos são complementares à totalidade da cena. Nestas pequenas passagens, nos menores motivos no qual notamos cada peculiaridade dos personagens e, da forma como eles se compõe, em acordo com a noção do prosaico, é que se destaca a sagacidade do diretor e de seus atores, além de toda equipe de apoio. O filme faz questão de ser simples, explorar o mais no menos, numa virtude BauHaus ao cinema, colocando o tempero em casualidades no qual poderíamos ver sem prestar atenção, mas acabamos prestando pelo esforço do projeto em vislumbrar isso.
Billy Wilder, mais uma vez, nos brinda com sua grande capacidade de contista do urbano, do pouco, do detalhismo no todo: elaborar histórias assim, correr ao longo de quase duas horas com uma mistura de universos, todos olhados pela maneira ao reconhecer os desdobramentos mais banais em situações no qual o público acaba por identificar-se com todas as figuras; os personagens são, desta forma, extensões do que as pessoas estão acostumadas a ver fora da tela: advogados agindo como advogados, pessoas com problemas de saúde agindo como pessoas com problemas de saúde, réus incriminados erroneamente agindo como tais; enfim: o espectador É o personagem de Billy Wilder, pois este sabe, como poucos, tornar a própria obra um elemento da simplicidade na vida; o cinema merece, também, atenção… é daí que o diretor brilha: e é aí que Testemunha de Acusação é um maravilhoso filme! Mais uma obra-prima para se ver e rever… Boa Noite e até a Próxima Sessão!
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