Cara, cadê o meu carro?

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Antes de começar, uma lenda que eu nunca soube se é verdade ou não, mas acredito igualmente. O presidente malaio, ou qualquer coisa assim, um ávido cinéfilo de alguma região remota, perguntou ao renomado documentarista americano Michael Moore qual filme ele deveria ver para compreender a sociedade americana melhor, ao passo que o cara respondeu:
– Assista Cara, cadê o meu carro?
Lenda ou verdade, esta história é sensacional demais; não apenas pelo seu teor crítico, onde Michael Moore estava claramente se aproveitando da oportunidade para dar uma tiradinha de sarro na sociedade americana contemporânea, mas porque, de fato, transporta uma comédia pra lá de pastelona no pequeno clássico que é – ou menos como deveria ser tratada, embora a maioria das pessoas ignore as nuances. A película, ainda que abusando do humor mais idiota possível tem uma mistura de ótimos momentos, sobressaltos tão bons que constituem no desmembramento de suas cenas o ápice do humor americano contemporâneo: Cara, cadê o meu carro? foi a contemplação máxima de uma saga de comédia no qual deveríamos prestar mais atenção, pois identifica no exagero desenfreado muitos dos costumes que fazem e fizeram graça no nosso tempo, sobressaindo um trabalho bem grandioso de formulação no caráter.
A fórmula é até simples: os dois amigos patetas farreiam na noite anterior, perdem o carro – com o presente de suas respectivas namoradas dentro – e acordam loucos para achar o carro e, consequentemente, os presentes que estão lá. Uma evidente disposição naquilo que estamos muito acostumados, pois é na perspectiva dos dois amigos, os idiotas, que passamos a olhar a sana de acontecimentos no qual se desenvolverão uma série de absurdos crescentes, culminando, inclusive, em aliens e teóricos conspiracionistas vestidos de plástico-bolha. Porém, Cara, cadê o meu carro? consegue se destacar mesmo em sua trivialidade; por não ser exatamente inovador em sua história, o que garante uma dose excepcional de humor é a medida estritamente bem construída no caráter de seus personagens – principalmente os principais, claro, mas também nos secundários: há um abuso hiperbólico de relações e momentos no qual cada casta, cada grupo extremamente bem definido formará sua opinião através da ação no desenrolar de narrativas sui-generis; os playboys, os nerds, os patetas, a loira gostosa, os vilões sinistros etc. todo o caráter da narrativa é, sobretudo, um exagero no que estas personalidades representariam no mundo real; porém, não sem antes considerar que, sim, estes mesmos grupos possam existir neste mundo.
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Talvez isto explique as palavras de Michael Moore ao presidente malaio: por ser exagerado, o tom reaparece com uma certa ironia bem alfinetada sobre situações; afinal, ‘isto representaria a realidade?’… e é aí que a obra torna a virar clássico subestimado. Mesmo em hipérbole constante, o sentimento na montagem é exatamente o oposto, pois somos levados a crer no absurdo como método de trivialidade corriqueira, porque encaramos os acontecimentos através da possibilidade de, no caso, encontrarmos com figuras igualmente absurdas no nosso cotidiano, ali na esquina, na outra rua, onde quer que seja; daí que Cara, cadê o meu carro?, mesmo sem perceber, torna-se uma comédia não apenas pastelona, mas também uma crítica bem peculiar exatamente ao comportamento padrão pós-2000: o filme é essencialmente uma sátira que não conforma com a ficção, pois e, embora absurdo, tende a colocar a divisão de castas que propõe, a constituição dos grupos específicos que trata de forma tão cômica e caricata – ou até tosca -, de modo que estes mesmos se portariam em ambientes parecidos onde poderíamos vê-los agindo como tal.

A virada da coisa se dá estritamente numa contradição: o tosco, que na verdade somos nós. A risada do filme transforma-se na garantia de e, por ser idiota, que a idiotice exibida também nos cerca no mundo real na mesma medida. E quando o crescendo de exageros tornam a exacerbar tudo de maneira cada vez mais surreal, ainda mais ignorante ao ponto da risada soar, as vezes, como algo mentiroso, é do nosso espelho que estamos rindo: Cara, cadê o meu carro? nos mostra o retrato velado, como se vomitasse na nossa cara o que nós – e não apenas os americanos – fomos capaz de nos tornar ao idealizar um filme bizarramente indomável e tão identificador. O extrapolar completo de todo e qualquer bom-senso em situações absolutamente banais – e daí porque toda cena de situações corriqueiras, no filme, é levada a última instância – nos prova um pouco do que cada um, espectadores, afinal, esperamos de nós mesmos em eventos semelhantes. Portanto, rir, deliciar-se com a idiotice completa de ambos os personagens principais (muito bem executados, alias), bem como todos os que lá estão para ajudá-los ou sabotá-los, é uma risada interna, quase como quando caímos na rua e ficamos imaginando a besteira que fizemos… pois o filme transborda uma realidade completamente profunda sobre nós mesmos. Se somos capazes de nos depararmos com aquilo e, ainda assim, não percebermos um pouco da gente, enfim, falhamos na autocrítica. Novamente, olhemos a frase de Michael Moore, pois o filme não apenas fala naquilo que está representado não sociedade americana, mas na sociedade contemporânea de modo geral: é o nosso mundo que foi gravado e ambientado na ficção.

Vejam, revejam e revejam novamente. Cara, cadê o meu carro é um daqueles filmes que, embora tenha tudo para dar errado e ser desmerecido, não o é. Que seja, por vezes, mal e mal tratado como algo bom, é, sim, absolutamente genial. O humor prega as peças de falar verdades inconvenientes; e, neste caso, por ser tão surreal, não apenas inconveniente mas algumas coisas que nem esperaríamos compreender. Uma ótima película, uma ótima comédia. Boa Tarde e até a Próxima Sessão!

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