A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça

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Tim Burton tornou-se um cara que divide opiniões; de uma ascensão meteórica e unânime, indiscutível ao todo, entre elogios e um estilo neo-expressionista extremamente característico e inovador oriundo dos seus primeiros projetos, o diretor dos últimos anos parece ter entrado em piloto automático numa série de filmes duvidosos – alguns com críticas pesadíssimas sobre a qualidade pra lá de estranha. Entre ódios e amores, há de se peneirar vários trabalhos memoráveis. Um dos meus preferidos, que já não é tão início de carreira, é o famoso A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça; é engraçado… o diretor, que desenvolveu uma linguagem marcante, como dito, numa clara referência ao expressionismo alemão e toda sorte de referência exagerada à seus contos favoritos, recriando-os a seu modo, de maneira a interpretar isto com novos elementos, nunca trabalhou propriamente com um ‘filme de terror’, e talvez A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça seja o que mais se aproxime disso sem também sê-lo de fato.
Na perspectiva peculiar, entre alguns furinhos de continuidade, uma história carregada em clichês, o projeto é muito bom; o que mais encanta aos olhos, primeiramente, é a ironia da coisa: é uma das películas do diretor com menos cara de ‘filme do Tim Burton’, por vezes num cenário mais realista e menos exagerado, ainda assim desenvolve uma atmosfera única e interessante; nesta forma diferente do resto, o grande acerto. O ambiente do filme é um retrato estranho, frio – tanto emocionalmente quanto fisicamente -, num local inóspito seguido por uma série de assassinatos associados à uma criatura sobrenatural e sem cabeça, cavalgando um cavalo lendário e matando suas vítimas também arrancando-lhes a cabeça. Numa releitura de uma lenda americana famosa que, inclusive, já havia virado um ótimo desenho da Disney e um conto antigo, a obra de Tim Burton é sobretudo tão boa quanto o desenho original; o diretor, aqui mais conservador, constitui uma narrativa – tanto em linguagem como em estética – um pouco mais formal ao seu projeto, transitando o exagero justamente em detalhes por vezes sucintos para sua característica exagerada (como no sangue vermelhíssimo em contraste à falta de cores), mas que reverberam uma imagem à história muito bem feita; é o caso do já dito ‘frio’ presente no filme, constante e influenciando diretamente na cenografia e, portanto, no resultado da narrativa: ao lidar com tanta neblina, casas umedecidas, um ambiente visivelmente gélido mas ao mesmo tempo molhado, grande parte do que nos é contato parte deste efeito ao interpretar a realidade das coisas no contexto proposto, que os elementos falem muito mais que qualquer discurso. O que se forma nisso é o exagero característico do diretor de outra forma, não tanto pelo que é visto mas pelo que é transmitido, contato… não vemos portas retorcidas, ou personagens pintados, tampouco os fundos coloridos, mas um efeito que, a sua maneira, ‘exagera uma realidade’ disposta numa época – pois o filme é refeito numa perspectiva do passado – trazendo aos olhos do espectador todas as nuances de porventura ‘se viver naquela situação’ em determinado período do tempo, sem tecnologia ou contato com o mundo exterior… apenas uma vila amaldiçoada e extremamente erma, convivendo com um medo não convencional.

 

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A grande sacada de A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça é este diálogo contínuo com o cenário. Como no desenho da Disney, a criatura pouco aparece antes das cenas finais; embora sejamos constantemente levados a querer vê-la, ou ao menos ouvi-la, grande parte da narrativa é contatada no que não sabemos e não queremos saber disso diretamente, mas por outros eventos. Vemos montar todo o terror da situação, a soma dos detalhes em um povoado apresentado aos poucos e como este mesmo reage ao fato de que, talvez, não apenas a criatura em si – mas tudo o que a eles o cerca – seja realmente apavorante. É claro que o cavaleiro ganha também seu destaque, muito mais como exagero, o tempero da trama; a maioria de suas cenas é, por isso, um montante de absurdos gore glorificando a morte, o sangue, em contraste até com a falta de cores dos ambientes relatado acima. Dito isso, o filme se monta neste dualismo entre situações: primeiramente nos vários minutos sisudos, tristes, lúgubres, no qual aprofundamos os detalhes do mistério e os pormenores de cada momento incluso nos problemas da vila, ao passo que segundamente somos levados a ver rapidamente a criatura que traz o medo, então, formando uma série de absurdos e exageros completamente desconectados com o que então já havíamos sido apresentados – tornando a história, por isso, em confronto com o realismo do seu personagem principal, um homem de razão, que acaba sugado pela magia da vila e de seus cultos estranhos. Talvez por isso o choque seja, inclusive, maior; não pelo exagero gráfico ou dos efeitos sensacionais para a época, mas o fato que então nos acostumamos com o óbvio, com uma vila que em muitos – ou todos – aspectos seria completamente prosaica, cotidiana, mas que então é dragada por uma situação sui-generis e completamente injustificada para lidar com seu passado sombrio.

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Ao diretor, os méritos: sejamos sinceros; se em muitos casos recentes ele perde a mão, ou mesmo nas suas obras tão glorificadas torna-se ‘muito parecido’ consigo mesmo, não é o caso aqui. Os seus acertos, como mostrado, relacionam uma película bem diferente do seu panteão; é na limpeza, no minimalismo, na simplicidade dos relatos no qual A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça é muito bom; por saber justamente na ironia, no ‘exagero do menos’ criar uma série de ambientes e cenários que pesam a mão na realidade e, assim, contam uma história tão característica à trama e também indispensável à montagem do argumento, o filme torna-se um pequeno clássico. Vendo e revendo, sabemos que o conto faz jus à lenda, tornando a ser algo extremamente ‘curioso’, pra não dizer de outro modo, enquanto somos apresentados para um assassino lendário e ao mesmo tempo impossível, enredado em uma cidade com suas crenças e seus medos que faz ao espectador crer que todo o medo, ali, é apenas ‘estar na cidade’. Vale a pena ser visto e revisto!.

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