Superbad – é hoje

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Eu resisti muito ao Superbad por uma série de fatores menores que não convém comentar. Não que eu nunca tenha o visto, mas qualificava-o como uma ‘comédia bobinha’, ou qualquer coisa do gênero nem sequer ligando para as nuances e uma grandiosidade que justamente surge nestes detalhes que eu ignorava; como eu ouvi por aí: um filme que define a ‘nossa geração’, sugerindo à imagem de quem nasceu pós-2000 e neste período mais ou menos. Talvez seja um pouco mais específico que isso, por se tratar de um nicho bem claro, mas ainda assim é uma comédia destas que faz especulação de um grupo e de maneira muito boa sobre este mesmo. Isto porque Superbad não é e, como tantos outros, um conto sobre ‘acontecimentos de uma festa’, mas uma exploração de, principalmente, olhar três caracteres comuns e desajustados, deslocados, que no absurdo de eventos desconsertados acabam, por um momento, brilhando em um universo de impossibilidades que o tornam extremamente engraçados – juntamente com a festa vindoura.
Tanto Seth (Jonah Hill), como Evan (Michael Cera), como McLovin (Christopher Mintz-Plasse), todos são personagens complexos que se põe em situações contrárias e absurdas, à sua maneira, querendo sobreviver às intempéries deste deslocamento sem saber como lidar muito bem com isso, errando e acumulando nestes erros mais e mais problemas; Seth, do seu jeito explosivo e entusiasta, avança numa ideia um pouco mais extrema e por vezes completamente deslocada de qualquer segurança, levando às últimas consequências suas atitudes para chegar no que quer; enquanto no seu contraponto, Evan sempre tão ponderado e calmo, tenta criar um vínculo de extremos com o amigo, explorando este lado mais maduro e suave ao acompanhá-lo quase como uma consciência nas presepadas de maneira mais sensata; por último, McLovin, o caos, é uma mistura exata dos dois, por vezes com medo, por vezes impulsivo, gere o rompimento – mas também o elo – que une os outros aos ser uma terceira parte tão surreal, mas ao mesmo tempo poderosa, que consegue superar o deslocamento, mesmo dos dois amigos, se inserindo sempre que possível como uma cola necessária entre extremos de ser um pouco sobre ambos.
O propósito do filme, como dito, e justamente por ser tão bom, não está na tarefa fácil de fazer o humor do óbvio, ao mostrar-nos o desenrolar de uma série de acontecimentos que poderiam culminar num humor de exagero por explorar situações da festa, mas, sim, ao agir nestes personagens colocando-os como figuras de muitas camadas e que percebem os eventos com uma riqueza de exageros em suas personalidades; cada qual, ali, é um mundo de medos e anseios que desenrolarão numa hiperbólica comédia de problemas adolescentes, surgida de coisas simples; por isso, o desajuste de cada um é algo importante ao processo: vê-los como são, pessoas que talvez não olhemos no cotidiano, ou que, em situações parecidas, não daríamos atenção, revelam o lado ‘cruel’ – visto, aqui, de maneira cômica, a exploração do vil como piada – do mundo adolescente de ‘crianças invisíveis’ em suas perspectivas singulares; com a inserção dos dois policiais também completamente insanos (Bill Hader e Seth Rgen), o desenrolar da trama só tende a ficar cada vez mais e mais absurda.

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É nesta contradição de linguagens, onde moleques simples, com vidas banais, levados ao caminho completamente oposto, apoiados em policiais malucos, parte ativa na sequência de todos acontecimentos como personagens importantes, que os espectadores são levados a experimentar um propósito maior que ‘um filme adolescente’ mas, muito mais, um grande filme sobre exageros prosaicos, situações cotidianas enfrentadas de maneira impossível. O humor do projeto é, sobretudo, a imagem contrária ao óbvio: espelhada neste dito impossível, damos risadas porque embora pudéssemos encontrar todas aquelas figuras virando a esquina, fora de sua diegése, em qualquer lugar do mundo, provavelmente não os encontraríamos em situações como são apresentadas na narrativa; e é neste sentido que, a despeito de atuações muito boas, brilha também o toque do diretor… por saber picotar a trama em pequenos momentos, em viradas enérgicas de modo a focar cada qual um pouco em um personagem, ao ‘contar histórias’ mais densas sobre todos para dar uma dinâmica um pouco mais viva aos caracteres, é que a película ganha uma qualidade ainda mais interessante, justamente por enriquecer o tratamento com detalhes e diálogos que nos fazem ter um contato mais próximo com cada um – uma identidade no qual o espectador acaba por gostar de maneira mais próxima de cada um -, entendendo então estas experiências ainda mais perto de nosso cotidiano, imaginando ainda mais um ‘dentro da tela’ possível de lidar com personagens críveis e não-críveis na mesma proporção, o que nos leva a rir de todo cotidiano simplório mas ao mesmo tempo absurdo, como se fossem acontecimentos urbanos projetados numa realidade no qual o espectador esta acostumado tão bem.

 

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No final, talvez não represente tão bem uma geração – ao mesmo tempo que representa um nicho de maneira perfeita -, mas sim representando uma realidade no total: o cotidiano adolescente, de ‘crianças invisíveis’, carece deste contato com o humor de maneira a vê-los como figuras ativas na graça, como neste filme, sem uma auto-humilhação de personagens; Superbad é uma exploração quase literal de um argumento bem montado a dinamizar uma estrutura que viria posteriormente, explorando estes caracteres deslocados para um mundo no qual eles se tornem estrelas muito boas – sem quem ninguém tenha feito de maneira tão ótima como nele – e nós, espectadores, possamos aproveitar com muitas risadas! Um grande filme, uma ótima comédia! Bom dia e até a Próxima Sessão!

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