Stranger Things – a nova série original do Netflix

A série nova e original do Netflix bombou um monte; mal surgiu, foi vista e revista em meio mundo e já há os entusiastas, por aí, chamando de ‘ícone’, uma homenagem retrô muito bem feita sobre um determinado tipo de cinema que já findou, com o final dos anos 80 e 90. Eu vi em um dia e meio, é relativamente curta – há apenas uma temporada divulgada e oito episódios -, então é super tranquila de se olhar tudo de uma vez e vir aqui comentar.

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Para começar: eu divido as opiniões entre expectativas e resultados, neste caso; a despeito de ser uma série e eu evitar comentar séries aqui… as vezes acontece… principalmente porque, em virtude de algumas escolhas narrativas, como disseram por aí, a série mais parece um ‘filmão de várias horas’. Explico (e já adianto que concordo com este argumento). Num plano crescente sobre séries mais e mais complexas e bem feitas, um dos aspectos no qual este tipo de projeto audiovisual ganha poder é, justamente, ao conciliar um desenvolvimento longo entre planos na possibilidade de e, pelos detalhes narrativos, podermos conhecer mais a fundo seus personagens, explorando os pormenores de seus perfis ao máximo. Em um filme, por exemplo, mesmo nos casos em que eles sejam mais longos que o comum – como um filme de 3 ou mais horas -, as escolhas limitam-se à ideia do tempo resumido: a história é apresentada de forma a validar um caminho disposto entre enxugar cenários, discursos, para compreendermos as relações no ‘menos que é mais’, em poucos diálogos ou minutos entendendo os caminhos nos objetos apresentados enquanto personagens. Nas séries, pelo contrário, por serem mais longas – mesmo uma série pequena, curta, como esta, provavelmente terá mais de 8 horas -, a proposição se inverte: somos colocados de fronte a um projeto de recortes longos, colocados numa colcha no qual os momentos maiores apresentam com mais profundidade estas relações: os objetos da narrativa são, por sua vez, esmiuçados à última potência; é aí, também, que a série fica mais suscetível aos erros, pois pode acabar, literalmente, ao precisar compreender seu tempo, parecendo uma pura ‘encherão de linguiça’ – como acontece em alguns casos no qual a trama ‘se perde’ ao longo dos episódios e temporadas. O começo curioso de Stranger Things é existir num contraste disso…
Embora a série esteja no início – e seja difícil falar sobre sua sequência -, o sentimento transpassado nesta temporada inicial é um caso curioso de uma coisa que parece outra; por ter uma trama retrô embasada em lembranças, memórias de filmes e tramas muito famosas às produções clássicas dos anos 80 e 90 envolvendo figuras infantis, como os clássicos de Spielberg e até John Hughes, Stranger Things adota uma narrativa que, como dito, mais parece um ‘filmão de várias horas’. Por provavelmente saber que muitas de suas escolhas narrativas são evidentes clichês – e não há problema nisso, a série adota esta postura de homenagem escrachada, o clichê é uma ferramenta válida, neste sentido, quando bem feita -, ela tende a passar mais rápido em determinados elementos comuns para outros projetos do mesmo gênero. É o caso deste esmero em constituir narrativas lentas sobre os personagens, que não vemos aqui e tampouco se precisa, comum em outras séries. Justamente ao constituir-se pelos clichês, é bem provável que já saibamos em muitas formas o perfil dos personagens apresentados mesmo de maneira rápida e resumida, seus problemas e soluções mais básicos entre relações já foram vistos à exaustão, por evocar este perfil clássico de ‘história retrô’ revalidando um gênero clássico e já tão esgaçado em outros tempos; daí, não vemos, como em outras séries, o esmero em esmiuçar estes detalhes de pano de fundo, pois de certa forma todos nós já sabemos – ou ao menos esperamos – que determinadas coisas sejam como são, aconteçam como acontecerão. Por isso, Stranger Things foca o seu roteiro de um jeito muito mais ‘rápido’, digamos assim, apresentado em mostrar e concluir os exames da própria história de ficção criada… como num filme (grande), não é a narrativa lenta que nos atrai a entender os detalhes, mas o contrário: entendermos diante das escolhas como cada elemento da história será apresentado e concluído rapidamente, colocado no panteão da ficção à trama disposto em pequenos recortes volumosos e ligeiros disponíveis em compreender o todo.

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Notamos, assim, que Stranger Things pode até não ser inovadora – pois outras obras já tentaram isso -, mas se constrói num plano narrativo um pouco diferente do usual às séries; vi pessoas criticando, porém… pessoalmente eu gostei. A velocidade com que a trama é introduzida poderia ser, sim, um problema; entretanto, como dito, ao que já sabemos do gênero no qual a série ‘presta homenagem’, a falta de esmiuçar não é um problema, pelo contrário, permite à história a se focar numa ficção bem amarrada em referências do mesmo clima retrô. É possível notarmos uma bela homenagem dentro do desenvolvimento a, no mínimo, uma meia dúzia de filmes e outras séries, além de quadrinhos etc., não de forma invasiva ou apenas ‘por estar lá’, mas que ajudam a compor o clima de homenagem com uma boa retórica: se a ideia era, afinal, constituir este momento no qual saudamos o esmero de produções do passado, colocando o cenário infantil em destaque para retomar o poder narrativo da ficção impossível em criaturas fantásticas, mistérios em cidades pequenas e a relação de amizade entre crianças desajustadas e adolescentes frustrados, tudo funciona muito bem. Um destaque à produção de cenários e costumes, que fez um trabalho impecável em algo que a série deveria ser; afinal, grande parte de uma homenagem prestada está factualmente em nos convencer da veracidade daquilo no ambiente homenageado… e a série faz: o projeto, se apresentado rápido a trama dos personagens, detalha em cenários uma riqueza que não fala em textos, mas fala em imagens… vemos, aí, um belíssimo e bem construído universo em todos menores motivos para fazer nós, espectadores, sentirmos parte do ‘de volta ao passado’ proposto em habituar um roteiro clássico de ficção de outrora. Ponto alto, também, para a trilha sonora sensorial, colocando um sentimento atmosférico – e que faz o Vaporwave finalmente conquistar o cenário mainstream da música, numa ‘grande produção’. A trilha, para mim, foi uma das partes mais atrativas: sua composição soube dosar o propósito como um emaranhado de efeitos que confabulam com esta necessidade de ‘falar por imagens’, mas não apenas por elas, com um ‘falar por sons’ também; se a estética visual é extremamente bem feita por si só, ainda assim, a música ajuda a consolidar este clima de ‘passado no presente’, envolvendo entre dois mundos a mesma proposição de que nos menores ruídos é possível constituir uma memória afetiva muito clara: por ter quase ou nenhuma música factualmente contextualizada ao longo dos episódios, o ar que se faz é, em si, o de sons complexos em efeitos complexos disponíveis ao reativar o sentimento por memória sonora nos recortes.

Não parando aí, a escolha dos atores supre ainda mais este ar de nostalgia; todos os papéis – destaque para as crianças – foram também minunciosamente explorado pelos artistas em suas atuações e pelo casting na escolha estética dos tipos, constituindo na necessidade das rupturas de crises e brigas, contrapostas por amizades infantis fortes, traumas de um passado não esclarecido, o sentimento da ficção à cidade pequena, que nos traz a hiperbolia do exagero ao explorar estas mágoas e felicidades, que muitas vezes ficam restituídas e ‘não faladas’ e expressas apenas na face dos envolvidos; o clima de stress dos personagens é bem visual e muito bem executado pelos atores, levando este ar de exagero na tristeza e na felicidade na mesma proporção – novamente, com destaque às crianças, que souberam de maneira muito digna incorporar o perfil de amizade sem limites disposto no gênero que Spielberg tão bem consolidou outrora.
Sendo, nesta proposição, Stranger Things inova ao trazer ‘o velho de novo’; reativando nossa nostalgia, a série realmente ganha o ar de ‘filme grande’, pois envolve do mesmo modo o que já conhecíamos com um invólucro de novidade, ao se permitir falar de algo já manjado de um jeito estendido, maior que o convencional e em outro momento da humanidade; a trama, desta forma, por não dar certa profundidade lenta às personalidades, pode também amarrar mais elementos à ficção, que se mostra também muito bem feita, muito bem dialoga com o motivo… todos os mistérios apresentados não ficam parecendo cliffhangers desnecessários ou soltos, pelo contrário, é como se a história apresentada se encerrasse muito bem no que pretende, no clima de oculto contado todos os elementos apresentados são, também, concluídos de alguma forma. Daí, outro acerto, é a ideia de que a série não dá ‘ponto sem nó’. Muito embora vomite referências, inclusive na construção do roteiro, o que vemos ao longo dos oito episódios é que eles dão sentido narrativo à trama – acelerados, sim, mas que se iniciam e fecham em motivos justos no esperado. Ponto importante, porque a homenagem poderia pegar ao querer ser ‘apenas uma homenagem’, mas, pelo contrário, demonstra um apego bem grande em também constituir o seu panteão bem feito como alvo próprio, original, disponibilizando assim uma trama no qual os elementos, embora retrô, tenham uma certa cara própria… um algo novo interessante.

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Talvez vejamos, ao longo de mais temporadas – se tiverem, porque eu realmente não sei como funcionará -, um desenvolvimento com mais ‘cara de série’ à Stranger Things; no entanto, o tiro curto dado até o momento, com oito episódios, foi uma grata surpresa; saímos um pouco do mercado de séries já fixados em alguns modelos clássicos e entramos num período no qual, quem sabe, Stranger Things, extremamente bem produzida, com uma narrativa mais veloz, possa marcar este novo modelo de séries para o futuro, consolidando uma realidade que já se discutia a tempos: as séries cada vez mais são produzidas como filmes, inclusive em termos financeiros, mas nunca – antes de Game of Thrones – haviam alcançado a estética das super-produções nas ficções mais exageradas, totalmente reconstituídas num panteão envolvendo elementos complexos: costumes, cenários, histórias, personagens etc.; se Game of Thrones fez isso, embora ainda com o modelo narrativo lento, Stranger Things consolida a narrativa do cinema. Estaríamos vendo nascer um novo gênero, no futuro, apresentando este esmero misturado dos dois mundos? A previsão é difícil, mas Stranger Things é uma grata surpresa. Vale a pena ver e rever. Boa Tarde e até a Próxima Sessão!

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