Intocáveis

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A comédia, sobretudo a comédia de destaque no cinema em geral, é um produto no qual é difícil não cair no ‘ame ou odeie’; existe uma legião de filmes no qual muitos concordam e veneram, enquanto outros detestam sem nem querer falar sobre; acho que e, por quase sempre vislumbrar o exagero através dos estereótipos, na caricatura seja ela de qualquer for – classe, gênero, raça etc. -, há  constante risco de uma ruptura, uma linha cruzada no qual alguns gostam, outros não: o caso emblemático da ‘comédia fazer graça com os personagens certos’ ou ‘fazer graça com coisas que não deveria fazer’, entendendo-a como um recurso de interpretação da igualdade, um equilíbrio de ferramenta política. Daí, é difícil ver o gênero destes filmes sem o manto dos rituais, dos quais seus espectadores amam ou odeiam certos filmes, justamente por explorar – muitas vezes em demasia – determinados universos sensíveis para a maioria. Porém, há, sim, aquelas obras que trabalham tão bem o tema, de forma sútil mas enfática, que fica difícil achar alguém que propriamente deteste – mesmo em casos de estereótipos delicados, como o caso de Intocáveis.
Coloco, claro, Intocáveis como um ‘caso sensível’ justamente por fazer uso do exagero em situações não comuns; em suma, não podemos escapar do óbvio no discurso da obra: a película trata o drama da mobilidade, da dificuldade de pessoas com deficiência motora – seja de nascença, ou no caso da trama por acidente -, convertendo uma possível dor, tristeza, num arremedo de pequenas piadas elevadas ao exagero, adicionando outro ícone também delicado, num personagem negro e oriundo da imigração na sociedade francesa, visto ali como o cuidador do deficiente em questão. Explicado isso, o prato é cheio e a fórmula seria – mas não é – tão simples assim. Se, no geral, o esperado seria o levantamento mais do que simplificado destas duas caricaturas, expostas tanto na deficiência como no negro imigrante numa vida de luxo incomum, o humor do filme é montado numa relação além, tipificando a reação do humor como fórmula para a amizade de ambos, figuras tão extremas e distantes, nos momentos prosaicos desta relação no qual estão ligados pela situação do trabalho: o acidentado e seu empregado e cuidador.
Partindo desta realidade, é claro que os aspectos do exagero são levantados sobre isso, pois quantas vezes Philippe ironizar Drizz pelo seu gosto ‘não refinado’ (como no caso da música ou da arte), do mesmo modo que Drizz responde à falta de movimentos do primeiro utilizando isto como motivos de ironia – como no caso em que corta o bigode de Philippe como o de Hitler, sem a escolha do primeiro, fazendo piadas do seu serviço e da pessoa aos seus cuidados -, sem, no entanto, ser o foco da graça numa problemática de modo exagerada ou forçada; num olhar mais pormenorizado, notamos que a coisa, aqui, se inverte: a graça do óbvio, dos estereótipos fáceis, é obliterada pela sua lógica de amizade no qual ambos se conquistam e apresentam para cada um dos personagens cada vez mais próximos por seus mundos diferentes… justamente por optar em não fazer o óbvio, utilizar destes estereótipos como o ritmo da trama apenas como apoio para entendermos a vivência de ambos e em como levam à graça à vida complexa dos dois – um pelas suas relações de pobreza, o outro pelas suas relações de debilidade -, vemos uma união de risos e humor universal e leve, mas ao mesmo tempo contundente: não nos sentimos incomodados com os exageros e ‘temas polêmicos’, por assim dizer, pois somos dragados pela relação desenvolvida nesta amizade a compreender um aspecto ainda mais poderoso formado no somatório das diferenças e do acaso ao lidar, construtivamente, de maneira que demonstre no humor como uma formulação de amizades impossíveis, da compreensão de figuras tão extremas em uma mesma relação, a da vida mais ‘leve’ e menos problemática por estes vínculos que vão além do emprego e permitem compreender melhor o mundo dos dois personagens.

Intocáveis
Intocáveis formula uma proposta que não é exatamente nova, pois já vimos casos semelhantes, mas garante a exploração de um gênero de uma maneira bastante bem feita: a piada, embora de situações delicadas, demonstrada no filme, dá uma ‘nova cara’ à graça, de modo que ela possa ser entendida pelo todo e não propriamente como uma ferramenta descabida; o filme não funciona exatamente porque ‘nos faz rir’, mas ‘faz rir’ E funciona por atrelar a este o humor como um cenário de algo que pode – e deve – ser mais elaborado e constituído para nos dar o ar desta risada; daí, também, como gênero de humor, vai além do mesmo e revisita um certo drama ao elaborar a vida, os propósitos e as relações destes mesmos personagens, não restituindo apenas a papéis que sejam cômicos mas sem sentido: é importante olharmos à trama para entendê-los constituídos nas suas relações narrativas, apontando para ambos os como numa rede de vivências que dá forma à ideia pelo seu passado e como o futuro também se relacionará com os acontecimentos do agora. É, daí, que o filme passa de um aspecto simples – embora ainda seja de uma trama simplificada -, para uma rica obra de relações – e também porque não nos apegamos ao conflito dos extremos como motivos de estereótipo: afinal, não ligamos para isso, como o diretor não ligou ao representar a história, como o personagens de Philippe não liga ao contratar Drizz; a mensagem está, sobretudo, na unidade no qual ambos geram nestes pequenos conflitos, revisitados num caso e de maneira que – e como dito – ambos sejam, ao se completar, ‘personagens principais’ unidos, porque só se pode entender o filme neste olhar cruzado de duas criaturas que se assemelham por entenderem laços cruciais de uma sociedade em castas distantes, no qual o complemento de cada um é exatamente o que o outro pode e sabe fazer, enquanto o próprio indivíduo não saberia sozinho.
A forma como olhamos a obra afeta, deste modo, que em alguns casos, como este, uma suposta ‘boa qualidade’ torne indiscutível as coisas – por mais idiotamente polêmicas que elas poderiam parecer; como disse, é quase unanimidade: Intocáveis fez por merecer os elogios e a aclamação, pois soube pisar em ovos com classe, sem quebrá-los e revisitando a graça no estereótipo sem focar nisto com exagero. Um ótimo filme e uma ótima comédia, vale a pena ser visto e revisto!

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