Piratas do Rock

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Este é aquele tipo de filme que, curiosamente, nos cativa pelos motivos totalmente alheios ao cinema na sua totalidade. Como um produto específico da arte, quer dizer, esperamos que o objeto de um certo grupo – no caso, o cinema – seja factualmente relativo a ele enquanto justificativa: um ‘filme bom’, digamos, deve haver por contatos no que o audiovisual faça nossos olhos e ouvidos brilharem por este significado na experiência ao ‘ser bom’. Por isso precisa ser AUDIO e VISUAL, como deixa claro a junção dos termos; a estética do cinema é sobretudo um junção de movimentos, entre sons e imagens que nos contam algo por sua união específica na linha narrativa. Há, no entanto, casos curiosos – como o caso de Piratas do Rock…
Eu vou começar voltando um pouco atrás: é injusto alegar que esta obra não tenha seu apreço estético pensado com esmero; de fato, as edições, cortes, enquadramentos, roupas, cenários, cores, atores e atuações, tudo é impecavelmente bem produzido – um trabalho que justifica os milhões. O filme é realmente muito bonito, um ótimo trabalho de recortes e traços perfeitos ao retratar um pedaço da história do passado recente, meio em tom de comédia pacífica, de situações não exageradas, meio em tom de argumento impossível, contando um ou outro caso mais escabroso entre cenas do momentos específicos. Por isso, o filme é, sim, belo – ao menos bem feito no termo mais estrito da produção, ainda que não seja exatamente uma novidade neste sentido, apresenta uma boa gama de produtores e uma equipe que se preocupou bastante em tomar uma atmosfera um tanto quanto trabalhada; por ser interessante, funciona muito bem: olhamos a obra, enquanto espectadores, também curiosos com os detalhes, os arranjos e principalmente a exploração do visual anos 60 de maneira que isto seja realmente factível para a história. No entanto, não é nisso que o filme nos ganha.
O grande acerto da obra – e aí porque eu comecei colocando minha afirmação daquele jeito – é o trabalho sensacional de constituir a história do projeto, na sinopse de uma rádio amadora pirata que tocava clássicos do rock quando isso era proibido, de forma totalmente musical; não COMO um musical, porque o filme não o é, mas explorando cada ação, reação, detalhe narrativo, de maneira invertida a coincidi-lo com uma trilha sonora específica – e toda ela baseada em sucessos maravilhosos daquele período, ora de rock, ora progressivo, ora de pop-rock, em bandas como Cream, Beatles, The BoxTops etc.. Daí, por isso que se torna irônico, diferente, um pouco menos usual que a prática comum; pois gostamos do filme, primeiramente, pelo que ouvimos e não propriamente pelo que estamos aptos a ver – mesmo que isso também seja importante; como dito, há uma relação muito bem elaborada em disponibilizar esteticamente o que se pretendia ao trazer os anos 60 para às telas.

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De certa forma, já estamos conectados com o filme numa certa nostalgia apenas pelas suas músicas, convertendo a expectativa em algo que torne a ser, exatamente como o argumento da história, uma mensagem positiva pelas canções; se a ideia por trás da rádio fictícia da película, no caso, era assim transmitir o rock e mostrá-lo a milhões de fãs até então negados pela proibição do Estado, que melhor maneira de fazê-lo senão pelo próprio incentivo musical, demonstrando a energia destas canções na sua relação com o público, bem como o espectador do filme? Claro, como dito, não podemos negar as boas atuações e  reflexo narrativo diante de bons personages e suas relações, evidenciando o lado ‘humano’ da rádio ao disponibilizar conflitos, problemas e soluções, pois a comédia das situações é montada, também, no carisma dos estereótipos de cada qual exposto visivelmente em um estilo musical do rock da época. Por isso, uma obra audiovisual: audio + visual. O complemento da imagem, embora levado pelo som, é também algo ótimo à conexão das expectativas com a narrativa do projeto. Mas, é bom lembrar que e, mesmo assim, temos uma película que fala através dos sons, pois nada teria de sentido se não fosse a trilha impecável, elaborada como foi; não apenas pelas escolhas, mas também nos espaços inseridos, momentos certos e de maneira que torne tudo ainda mais dramático e mais teatral à sucessão de necessidades para evidenciar os estereótipos – que nada mais são do que um grande exagero. O som é o caminho do desenho, sendo assim, a própria pauta da imagem: somos levados ao contrário, não como apoio de um pelo outro, mas de como a música guia estes caminhos para que por acaso se possam formar os argumentos através do resto; ao final, ‘vemos’ o som através de como este se reproduz no que seria possível se ‘víssemos o áudio’.
Diante disso, ainda que não propriamente como algo que saiba intencionalmente – porque não acredito realmente ser algo pensado pela criação da obra -, ou que seja em si algo definitivamente tentando ser genial, a formulação do filme – curiosa, sim, diga-se – é algo que refaz um caminho diferente ao cinema tradicional, que vemos dia a dia em tantas outras obras; um pouco menos casual que o normal, talvez nem como o diretor esperava mas, ainda assim, um ótimo propósito; melhor do que se fosse convencional, inclusive. Vale a pena ser visto e revisto!

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