Marcas da Violência

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Este é um filme que eu queria ver há tempos, especificamente porque gosto muito do Cronenberg, mas demorei pra ver – e talvez tenha sido bom, justamente porque pude assistir outras obras da filmografia do diretor e compreendê-lo melhor, em todos seus detalhes e características.
Marcas da Violência é, sobretudo, um ‘filme assinatura’ potencialmente compreensível de todas estas características do mesmo diretor, descritas acima, – e, daí, importante eu esperar tanto para vê-lo. Foi, disso, um grande feito para Cronenberg imprimir em uma obra algo tão compreensível na totalidade de seus filmes, que permanecem sempre numa linguagem muito peculiar, uma conversa bem específica entre si. É muito importante ver como o diretor é capaz de, através de suas obras, fazer um recorte de momento tão denso ao ponto de tornar aquilo como objeto da trama por completo, como se o ínfimo fosse capaz de nos transpassar de maneira quase mágica tudo que precisássemos saber. Em Marcas da Violência isto se torna muito evidente, mais que nos seus outros projetos.
Notem que a capacidade do diretor se dá em, como dito, esmiuçar um momento ao máximo, um ato contínuo em roteiro suficiente para contar a história da obra – como triunfo, isto é um trabalho tão bem feito que opera quase como um contínuo de quadros pintados na tela – de forma a nos passar toda narrativa em muito pouco; no caso de Marcas da Violência, este recorte é sintomático, porque parte da própria história: somos apresentados ao meio através da cena, sem saber exatamente a procedência dos personagens, de modo que o próprio ato inicial irá se desenrolar nisso como justificativa para continuidade de tudo, como um costurar de ações feitas em um cenário simples e quase impossível: ao nada, que parece sair de uma ação tão simples – uma reação, autodefesa -, aflora uma realidade complexa de motivações vindouras por isto. Daí, este recorte é propriamente minúsculo mas ao mesmo tempo rico em discursos: um ‘pedaço’ de história propriamente dito, enraizado naquele momento em que tudo começa e como tudo vai acabar tão repentinamente, apenas ao nos dar detalhes, mas falando justamente por estes detalhes.
No caso de Marcas da Violência, é o antagonismo de situações disposto no seu personagem principal: o antes e o depois atribuídos no rompimento dado pela primeira cena, naquilo que ‘volta a ser’ incômodo para o personagem e que antes não existe além da diegese – considerando que o espectador não é apresentado em nada além do que se mostra na tela: seu passado, que é negado tanto ao espectador, visualmente, como à própria diegese escondida numa história rica e silenciada, porque ninguém parece querer falar sobre isso, está lá para explicar a ação do roteiro; desta forma, o filme se molda nos contrastes: um ‘antes’, atribuído na ideia de movimento, de ação, dos fragmentos inseridos que possamos admitir isso pelos poucos momentos que somos apresentados – ou que sequer vemos -, opostos à família e a tranquilidade do novo emprego, do descanso, da civilidade reconfortante na vida prosaica do interior, que é o que está, ali, na produção gravado e filmado: a obra em si contada entre o que é e o que não-é em igual apoio.

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Nesta balança do que se dá e é visto e o que não é, moldamos, daí, uma história tão densa num recorte tão curto – marca característica de Cronenberg que, para mim, é um dos melhores contadores de história com poucos elementos do cinema. Afinal, Marcas da Violência é simples e complexo pelo excesso de simplicidade: estruturalmente, roteiro, cenários, personagens, bem como a proposta e inclusive as escolhas estéticas – cortes, cenas, enquadramento; o que torna o filme, assim, como tanto se espera, uma obra tão grandiosa, cheia de significados dispostos na dicotomia, é um longo acordo do diretor ao costurar estes pequenos detalhes na forma de um diálogo interno com o espectador: é como se Cronenberg sussurrasse em nossos ouvidos o que precisássemos saber e, daí, neste sussurro confuso, o espectador fosse levado às suas próprias conclusões, ainda que nada disso seja propriamente visível na trama de um jeito mais direto.
Como num quadro, como comparado, o filme não nos ‘dá’ as informações; somos obrigados a absorver dentre elas o que vemos e o que do que é visto possa ser imaginado diante da cena montada, diante deste contínuo diálogo entre a obra e o que se molda nela pelo cenário dos respectivos elementos dispostos ali; daí, Marcas da Violência é, assim, dicotômico entre ser e não ser, no que se vê e o que não se vê, no que imaginamos e o que realmente podemos observar; como o personagem principal, seu passado que se nega a acabar e que ele se nega a falar – num silêncio eterno de negação a si mesmo -, em contrapartida ao conforto e a delicadeza bucólica do presente, da vida simples que ele pretende levar – ainda que, por vezes, excessivamente mentirosa, em confronto com a narrativa de um apagamento forçado do antes, subtraída para poder existir. Uma grande obra, uma das melhores deste maravilhoso diretos, vale a pena ser vista e revista! Boa Tarde, um bom feriado e até a Próxima Sessão!

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