Coraline e Alice: uma lista de comparações

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Finalmente vi este filme maravilhoso que tanto tempo demorei; no meu outro blog, já havia recebido, inclusive, indicações dos leitores para assisti-lo, mas acabei me enrolando mais do que pretendia. Vi, então, e notei algumas peculiaridades entre outro clássico que eu gosto muito: Alice no País das Maravilhas – tanto livros quanto filmes; há várias relações bem curiosas entre os dois – e provavelmente Coraline ‘bebeu na fonte’ de Alice sem medo (eu sei que o livro de Coraline fez isso, mas estou comentando a respeito apenas do filme, porque não li ele, no caso), com várias referências a criar outro clássico na mesma proporção, utilizando da transferência de relações como cara para uma identidade nova. Eu não queria entrar tanto nas condições que me fizeram gostar de Coraline, porque considero um filme indiscutivelmente bom: tanto como produção, história, gravação, tudo é ótimo, de modo que seria ficar chovendo no molhado permanecer numa crítica diretamente sobre isso; basicamente eu estaria constatando o que todo mundo já pode perceber: é um belíssimo projeto. Por isso, resolvi entrar num aspecto que achei mais interessante, além de dar um tempo nas críticas para poder dar a vocês uma pausa em textão; como Alice é uma das minhas histórias favoritas, afinal, uma obra que homenageie-a tanto é, sem dúvidas, algo de meu interesse – e por isso consegui perceber várias coisas em comum. Então lá vai algumas que pude notar:

1 – O buraco e o espelho

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O primeiro ponto, sem dúvidas, e talvez o mais descarado seja a relação entre buracos em ambas as obras; em Alice, o ‘buraco da toca do coelho’ a coloca em contato com o mundo mágico de seus próprios sonhos, adentrando daí no universo onírico que faz o País das Maravilhas; do mesmo modo, em Coraline, o buraco na parede – aqui, sem referência ao coelho – a coloca no mundo mágico ‘ao avesso’ do seu, onde tudo é – inicialmente e supostamente – melhor que o original; há, também, neste aspecto do elemento contrário outro fator importante: em Coraline, o seu ‘mundo dos sonhos’ dentro do buraco é exatamente o oposto dos acontecimentos na vida real, como se fosse espelhado; nesta semântica das coisas, podemos colocar que por esta referência o clássico ‘Através do Espelho’, segunda obra em livro contendo Alice e o País das Maravilhas, apresenta elementos de significado também em Coraline, haja vista que quando Alice entra no espelho as funções se invertem do mesmo modo; o espelho não apenas troca a imagem, mas ‘espelha’ os atos – daí, a referência de Coraline.

2 – O gato

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Em Alice, podemos acompanhar o Gato de Cheshire, referência constante entre os diálogos e esclarecimentos da menina com ela mesma, quase como se fosse uma consciência externalizada em outra criatura: Alice sabe que toda a nonsense dos acontecimentos ‘é melhor vista’ aos olhos do que o gato pode explicar; do mesmo modo, o gato em Coraline apresenta um caráter esclarecedor, de figura mítica que se pega quase como consciência da menina ao mostrá-la que as coisas não são tão simples assim. Outro ponto é que, fisicamente, ambos tem o poder mágico de ‘sumir e aparecer’ quando bem entendem, dando um caráter similar a ambo os gatos.

3 – A outra mãe/Rainha Vermelha

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Uma das maiores injustiças cometidas em Alice é tentar, de maneira moral, rebaixar os atos da Rainha Vermelha entre ‘maus’, como se ela fosse uma vilã clássica – e esta é uma das minhas maiores críticas ao filme de Tim Burton, que tentou dar uma tônica de épico a uma obra que é reconhecidamente caótica, onde os personagens no livro de Alice mantém uma relação dúbia, sem uma exatidão de caráter ao ponto de compreendê-los exatamente como heróis ou vilões. Mesmo no desenho clássico da Disney, que a Rainha é a sua maneira uma vilã, também, há um elemento de loucura nisso: ela é muito mais uma maluca obsessiva sem-noção do que propriamente um inimigo; dito isso, como bem lembra-se uma passagem do livro: lá, todo mundo é louco. Deste modo, os atos da Rainha são bem melhores associados como elementos de loucura sem motivação aparente, de modo a colocá-la como uma figura por vezes boa, por vezes má mas, mais importante, completamente caótica.
Já em Coraline, a Outra Mãe é indiscutivelmente uma figura má; porém, não podemos esquecer que seus atos, para confabular com sua malvadeza, são organicamente obsessivo-caóticos… como os da Rainha: ela não antecipa as consequência nem as mede de maneira clara, apenas quer que as coisas funcionem à sua maneira.
Outro ponto importante é a relação de ambas com alguns elementos externos: primeiramente, a paixão pelo jardim que ambas reproduzem cultivando como uma mentira estética de sua externalização por uma busca de perfeição: o jardim simboliza esta atuação em ‘deixar tudo bonito’ fora elas mesmas; segundamente, ambas amam correlacionar seus atos com o prazer de um jogo; nisto, elas se aproximam novamente: os jogos são, talvez, sua maior fraqueza.

4 – Wybie e Tweedledee e Tweedledum

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Reparem como o aspecto curvo e dual de Wilby apresenta relações físicas com os irmãos do livro de Alice; não apenas isso, a relação dos personagens entre realidade e ‘mundo dos sonhos’ em Coraline é complementar, definitivamente como se eles agissem um ‘ajudando’ o outro em corpos separados e personalidades diferentes: no mundo dos sonhos, ele a ajuda conforme pode, do mesmo modo que no mundo real ele continua ajudando-a em carne e osso; como nos gêmeos de Alice, é como se houvessem dois personagens fisicamente idênticos e que reproduzem este caráter de apoio, recriando em ambas as histórias uma mutualidade de ações espelhadas em figuras iguais.

5 – Os cenários e as narrativas

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É importante observar a relação dos cenários e das narrativas, também, de modo como ambos reagem na história com o meio; a floresta é elemento importante em ambos os casos: em Coraline é o primeiro contato dela com o novo mundo de sua nova casa pós-mudança, bem como em Alice metade de suas relações ocorrem em ambientes bucólicos ou com relações diretas entre a natureza – muito embora seu sonho, no livro, comece dentro de sua casa. O jardim, novamente citado, é um espaço importante em ambos os casos, também – ainda como as flores, que estabelecem um papel quase igual de vingança em ambas as obras. A re-divisão da casa faz-se em Coraline uma boa relação como um labirinto, também presente no mundo de Alice, ao emaranhar seus objetivos de maneira pra lá de confusa. Os animais ganham formas importantes no debate: são agentes nas duas histórias, fazendo parte viva da situação. Os sonhos, como dito, são princípio básico de ambas as histórias e pautam o drama das ‘maravilhas’ propositalmente divididos num extremo de exagero: o irreal, aqui, ganha uma tônica de peça impossível mas também extremamente contrária à realidade.
E por enquanto é só, pessoal, vocês viram outras relações? Postem aqui, então! Boa Tarde e até a Próxima Sessão!
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