Esqueceram de Mim

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Eu não gosto de ser nostálgico em demasia, mas uma coisa que me prende ao passado é o cinema; não por causa das memórias reveladas, mas por como e quanto o cinema, sobretudo o Blockbuster, mudou tanto em pouco tempo – quiçá uns 10 anos, no máximo; o lugar da construção de conteúdo, de diálogos, deu espaço para o movimento: tudo é contado, agora, pelo descontrole das curvas e velocidade dos atos jogados com mais e mais volume, estética do exagero, porém sem argumento. Nota-se isso mais em alguns casos, como para mim nos filmes ‘infantis’; eu tenho pra mim que alguns destes clássicos não são propriamente ‘filmes infantis’ mas, vá lá, a categoria vale: Esqueceram de Mim é um deles; e, como dito, demonstra uma fórmula superada e muito melhor. Uma certa nostalgia do bem, sim, mas com motivos…
Revendo mais uma vez este clássico, é bom lembrar da construção narrativa delicada que o faz, assim, tão peculiar: um filmão mesmo. Se pudéssemos comparar com a atualidade, é bem seguro dizer que Esqueceram de Mim seria, nos dias de hoje, uma disposição de momentos sem fim das peripécias armadas por Kevin, com um enredo desenvolvido em, talvez, 15 minutos, para passar o resto inteiro da obra mostrando incontáveis cenas de movimento, os atos, as armadilhas mostradas de maneira a levar ao exagero a mesma ferramenta… mas Esqueceram de Mim foi gravado em outra época e seus motivos eram diferentes.

É bem possível reparar como, ao longo da trama, o que se convencionou lembrar das bugigangas discorre num diminuto momento da obra, em quase 20 minutos ou pouco mais, quando finalmente vemos as armadilhas de Kevin em ação; há, no entanto, por trás deste breve momento, uma construção de situações apenas para nos mostrar o porquê da mesma. Notem como a relação de Kevin com a família é importante, de modo que somos levados a vê-la, inclusive, por boa parte da trama, construindo (ou destruindo) as relações ao ponto de explicar a necessidade de Kevin estar sozinho: não se trata propriamente de um filme de um ato mas, nisso, um desenvolvimento de teias narrativas que discorrem em como o nosso simpático personagem principal precisa se afastar dos outros, dizendo que ‘quer que a família suma’ para, através disso, fazer valer como situação: é ele e seu desejo de afastamento, em constante confronto com os outros membros, que colocam os tijolos sobre o início da trama: Kevin não apenas fica sozinho, mas ele já ‘está’ sozinho desde o início, ao menos sentimentalmente, com a total falta de conexão com todo mundo.

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Destas tensões, tão bem colocadas pela película – sempre bom lembrar, que construiu isso ao longo de uma bela introdução -, vemos todos, mesmos os personagens secundários, com alguma personalidade que nos ajuda a certificar um certo caráter à peça; vemos, afinal, o contexto colocado para entender o último ato – com Kevin sozinho e agindo -, de modo que este passa a ser parte do projeto e não o projeto em totalidade. Inclusive os bandidos, que muito bem interpretados, entram na história ao fazer-se como um fio nesta teia: não os vemos apenas como figuras más, mas com toda a inserção de um plano fracassado porém muito bem pensado: é preciso conhecer os ‘bandidos molhados’, como eles se chamarão no futuro, para entender a dinâmica antagônica no menino sozinho e na sua relação de ‘sobrevivência’ no próprio ambiente, que é, também, apresentado em sua relação com o primeiro momento de diversão ao ficar sozinho, fazendo tudo que não poderia se os seus parentes ainda estivessem lá – incluindo, aí, também seu medo pelo desconhecido com o estranho da neve, sendo enrolado na trama quase como um ser mitológico em apoio ao processo de entendimento de Kevin com o mundo num antes (cheio) e depois (vazio).
Nesta construção detalhada em carácteres, somos levados a inteirar com a trama: enquanto espectadores, o cenário nos toma por sua compilação de detalhes, o seu jeito ao incluir tudo que se precisa saber para levar-nos a interagir com o desenrolar da obra de maneira a não apenas olhá-la distantemente, mas sentindo cada detalhe; daí, também, como a solidão de Kevin é ‘entendida’ ao compreender sua relação com os familiares, colocando o espectador na pele em um igual – talvez o único contato que incuta numa falta de vazio entre o personagem e a obra, pois o espectador torna-se o elemento de apoio entre os dois argumentos; notadamente, o que temos disso é o ‘além de’, disposto numa obra que, como dito no início, vai além: ela é, por e ser feita ao seu tempo, anos atrás, uma alternativa a se compreender as mudanças do cinema contemporâneo para o de poucas décadas anteriores em escolas similares; as escolhas que levam Esqueceram de Mim a ser tão bom é, por isso, uma narrativa complexa e bem construída ao esmiuçar detalhes e não valorizar o ato isolado da ação desenfreada; vemos uma obra que fala sobre um personagem, além dos personagens que o apoiam, e não sobre seus movimentos. É daí que Esqueceram de Mim não é um filme de exposição às bugigangas, embora as tenha – e deem charme ao projeto -, mas, sim, de contar muito bem uma história. Um grande projeto, vale a pena ser visto e revisto. Boa Noite e até a Próxima Sessão!

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