Os Outros

Gosto muito dos Outros, sobretudo por arriscar tudo ou nada e conseguir o resultado como tudo; explico minha questão; desde o começo, ainda numa onda de ‘novo terror’, quando foi lançado, embalado entre tantos outros clássicos da época – com a inserção dos sustos nos efeitos de som, principalmente, nesta nova linguagem -, Os Outros tenta, a sua maneira, manter-se fiel em ambos os mundos: aborda esta ‘nova cara’ da experiência de linguagem do terror, mas também cria envolvimento à experiência dos filmes clássicos antigos.

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Os Outros tem, em sua construção narrativa, o melhor dos elementos de outros clássicos dos grandes do gênero, feitos muitas décadas antes: quando percorre nos detalhes, na montagem dos elementos mais lentos, mais detalhados, ao transitar em diálogos e na constituição de cada momento como uma necessidade da cena, Os Outros traz à tônica a importância que é montar a história como expectativa do conto, para envolver a partir do que sabemos pelos personagens de antemão; não apenas gerar sustos escalafobéticos e abusar dos efeitos de maquiagem, ou transmitir a insegurança com uma extenuação gráfica e chocante, o filme constrói aos pouquinhos aquilo que torna ao espectador algo tão incômodo: somos dragados por todos estes detalhes em como nos colocamos na situação vista pelos olhos dos personagens lá dispostos: que, em situação claustrofóbica, são também vítimas de um medo por vezes atmosférico demais, num universo no qual não apenas criaturas assustam, mas pequenos movimentos – e também o escuro constante e presente da doença das crianças -, feita no efeito de espaço vazio.
O tom lúgubre da obra, que não apenas torna a ser efeito estético sem sentido, mas propositalmente esta parte importante da história, retrata daí um drama que acompanha o medo junto com a claustrofobia; o abandono do vazio, da solidão que se conta nesta história médica de doença – mas também humana -, ajuda a depor em favor desta zona limítrofe entre o velho e novo horror: por ser um filme também de época, todas as questões vindouras da guerra e de grandes mansões familiares tornam o ‘clima europeu’, por assim dizer, oriundo em tantas obras sobre temas semelhantes, algo incômodo por ser tão profundo, por representar graficamente o projeto como um vazio existencial entre vidas frágeis esquecidas em gigantescas moradias, distantes, redobrando o problema dos conflitos nas vítimas que não estavam diretamente envolvidas em batalhas: as famílias, que desta forma sofriam de maneira igual ao soldados. Da ficção do sobrenatural, aquilo que propõe a obra era um caminho comum, de uma vida também exemplo à época, despedaçada pela guerra e que ajudava a proporcionar este sentimento de vazio na perda.

Note que a construção de uma paranoia entre existir ou não, entre ver ou não fantasmas está fatidicamente dada no prosaico de uma família restrita aos afazeres na espera de um ‘fim a’ guerra, como meio de reafirmar seus laços com o pai, soldado e ausente em questão.
Por isso, a proporção que o sobrenatural torna-se ‘novo terror’, com sons e sustos mais explícitos, criaturas sobrenaturais aparecendo em tela, a película já construiu atrás um caráter de possibilidade pelo drama do abandono; entendemos, como espectadores, que a situação das pessoas lá enclausuradas poderia ser ‘perfeitamente normal’ dentro da solidão do caso, sem mesmo a necessidade do horror aparente. Nisto, o tom lúgubre que se toma pelo próprio espaço, pelo próprio vazio da escuridão, transforma a resolução de uma possível paranoia entre a dúvida do acontecido: estamos vendo casos sobrenaturais ou mera loucura? Ao que tudo se torna possível, é perfeitamente plausível que a confusão gerada, naquele ambiente, permita ambos os universos. A solidão, afinal, permite a paranoia; bem como a solidão na falta de defesa, de pessoas presentes numa mansão imensa, permite que criaturas sobrenaturais possam agir da melhor forma possível, aterrorizando a todos.

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Nesta construção, damos a Os Outros o benefício da dúvida, o que torna do projeto o tom mais apavorante ainda: como membro deste novo cinema de horror, onde o ‘plot twist’ é, em si, um mecanismo essencial, nossa insegurança aparente faz com que a virada da obra seja também algo chocante: enganamos a nós mesmos, presos como a família, sem entender em detalhes a situação, de modo que o filme ganha, assim, o caráter que pretende ao nos surpreender com o final inesperado. Ele nos apresenta o horror daqueles membros, pessoalizando a situação em quem o vê como um igual: somos todos dragados pela história, pela solidão, pelo vazio para, afinal, entender o drama e o medo em proporções iguais. Um grande filme, vale a pena ser visto e revisto. Boa Tarde e até a Próxima Sessão!

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