Terminator 2

Durante muito tempo, entre a minha adolescência, este foi meu filme favorito. A despeito de minhas desconfianças com James Cameron, principalmente com continuações desnecessárias – haja vista que Terminator 1 é uma história hermética, inicia-se e termina muito bem -, eu tenho de dar todos os méritos a esta belíssima película. Primeiro porque não apenas transforma o filme numa franquia de ficção científica extremamente rentável – e coesa -, mas também em todas as mudanças de atribuição aos personagens, da mesma forma que eles funcionem tão bem, ou até melhor, que a primeira obra.
Terminator 2 é a continuação mais oposta, talvez da história do cinema, mas ao mesmo tempo muito possível. Toda a condição montada na primeira trama é arremessada no lixo, contrapondo aquilo que fora montado em estruturas narrativas para, daí, deste oposto, recomeçar a história num patamar extremamente oposto e que configure nesta oposição o montante do cenário apocalíptico buscado no primeiro e reforçado neste segundo; há, em todos os filmes da cine-série, uma constante atribuição sobre o destino da coisa, de modo que todos atos gerados são relacionados a invariabilidade que eles existem: tentar anular o passado, para o projeto, apenas reafirma o que acontecerá de catastrófico no futuro por isso. Mas é em Terminator 2 que este gene nasce, justamente ao se opor ao primeiro.

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Quanto o personagem T-800 é reintroduzido na trama, não mais como exterminador de humanos, mas reprogramado como ‘exterminador de exterminadores’, num duelo épico contra T-1000, máquina de desenvolvimento superior, o projeto ganha sua performance ao reinventar as motivações do original, confiando nos seus mesmos atores para rever o oposto do início: se, no primeiro projeto, o exterminador era a criatura anti-humanidade que destituía de valor a vida, em Terminator 2 é o seu aprendizado em relação à missão que o faz uma nova identidade: um robô, por vezes, muito mais que humano. T-1000, inserido como oposição, é também muito mais cruel e o exterminador original T-800 de Terminator 1; daí, também, na hipérbole da estrutura de humanização a um dos robôs, vemos o antagonismo do seu adversário crescer numa anti-humanização equilibrada da mesma forma. Mas, não apenas eles, Sarah Connor também acaba por destacar-se em oposição ao primeiro filme, não mais como vítima indefesa e, pelo contrário, uma guerrilheira armada ao apocalipse previsto.
Notem que a extenuação destas personalidades de oposição é, justamente, possível pela mudança brusca entre a continuação e o original, sem, não obstante, valorizar desta mudança a condição narrativa que entrelaça ambos os projetos: o apocalipse e o destino velado. Sarah modifica-se do 1 para o 2 ao entender a necessidade de estar preparada para a guerra, bem como T-800 é reprogramado para tentar evitá-la, salvando seu comandante e filho de Sarah, John Connor; nesta óptica, a mudança abrupta entre os dois principais personagens é essencialmente o que dá continuidade à trama de maneira tão bem feita: em Sarah, a representação do apocalipse, como em T-800, a representação do destino. Nestes dois universos, vemos o que poderia ser o gancho à cine-série expressa no seu primeiro momento, de acordo aquilo que Terminator 2 constrói tão bem: nestes laços, entre o destino velado ao fim e o apocalipse previsto, vemos ressurgir a humanidade da máquina (em T-800), que não esperaríamos no primeiro projeto, entendendo que e, como bem fala Sarah em uma passagem, ‘se até as máquinas podem mudar… nós também’, deixando claro uma potente corrente no filme ao entender a ficção científica pelo seu caráter mais cru, o ‘lado humano’ da mensagem.

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Ao final, entre máquinas e metais, ressoa de Terminator 2 este grande fator: o filme, como exibição de sua humanidade, é uma belíssima obra dentre estas mudanças; toda a cenografia do pré-apocalipse e, muito bem colocada num cenário 80’s extremamente bem constituído, entre roupagens, carros, locações – quase como um certo tom de cópia ao Mad Max original -, só está apoiada porque passamos a nos identificar com os agentes da causa: somos familiarizados ao problema de Sarah e John, bem como T-800 nos ganha na sua evolução de caráter ao longo da trama, revelando que diante de todo o ar destrutivo, mesmo com os sonhos catastróficos de Sarah, enxergamos no resquício da meritocracia humana o que revela à sociedade: máquinas, pessoas, ou numa guerra entre ambas, o que nos gera é a capacidade de mudança, de saber evoluir em comunidade, ainda que com todas adversidades. E, disso, a única regra quebrada surge: o filme que traça um apocalipse horrível à humanidade é, ao mesmo tempo, o filme que tenta dar-nos um ar de esperança sobre isso. Vemos, por isso, que entre as camadas – bem como a pele e osso e metal do Exterminador – determina um certo ar de complexidade à obra, resquício de uma narrativa muito bem montada ao não dar o passo da ação maior e mais necessário em cenas soltas sobre o projeto: a estética acompanha o que se tem a dizer sobre ela e, neste caso, exatamente o oposto dos grandes efeitos especiais da obra, pois o que cativa é o lado  que se enreda na narrativa possibilitando a ação como apoio.
Um grande filme, vale a pena ser visto e revisto! Boa Noite e até a Próxima Sessão!

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