Death Rides a Horse

Saindo do costume dos grandes clássicos faroeste – que são muitos -, você ainda pode encontrar outros filmaços subestimados por aí; como grande defensor, eu digo que talvez o faroeste seja o meu gênero favorito e, não apenas isso, com um dos maiores impactos narrativos. Death Rides a Horse foi um destes filmes perdidos que o acaso me fez achar na busca do Netflix, quando não se tem nada melhor para fazer, ao ser presenteado com um belíssimo desconhecido.
Eu não gosto de comentar cenas sem correlação como forma de análise da obra, pois, para mim, o filme é um objeto completo – e, mesmo alguns filmes com cenas lindas, se elas estão deslocadas do todo… em nada me adiantam a não ser como fruição de particularidades não tão relevantes. Mas, no entanto, abro a exceção para este caso; o grande impacto que me tomou de sopetão pela obra foi, sobretudo, a cena de abertura – com lugar ao crédito -, num dos mais potentes e misteriosos inícios que eu já vi no cinema; tratando de uma obra sobre vingança, era mister que se apresentasse introdutoriamente o argumento por trás do caso, no qual colocassem o(s) vilão(ões) de modo que os mesmos fossem, assim, criaturas odiosas já de começo; e a cena de abertura, em pouco mais de alguns minutos, destaque para o momento do crédito em si, durando algo entre cinco segundos, é uma construção imagética tão grande, tão intensa de terror que, entre sons, enquadramentos e cores, todo o clima corroborado na sequência explica-se naqueles poucos frames sustentados num ângulo maravilhosamente incrível: os bandidos não são apenas apresentados, mas colocados ali como figuras semipreciosas, introduzidos à narrativa como grandes fontes de pavor distribuídos no espaço completamente escuro da noite e da chuva.

drah-gp-01.jpg
Não sem esquecer, claro, que a obra desenvolve-se muito bem ao redor do que nos é mostrado inicialmente: Death Rides a Horse que, como tal, pretendendo relatar o universo de uma vingança sobre um único sobrevivente tentando vingar sua família, precisa que o clima de tensão da(s) morte(s) iniciais sejam justificados no ato futuro daquele que busca seu feito. Como sub-gênero do western spaghetti, vemos claramente na construção do projeto em como o diretor italiano faz uso de uma narrativa tão típica à característica, apoiado no vislumbre excessivamente devastador – e assustador – do seu cenário, no vazio do deserto disposto no âmago do seu personagem principal (Bill) que, sozinho, reencontra-se com a figura misteriosa de Ryan (Lee Van Cleef), no qual pretende ajudá-lo sem explicar muito o porquê. Na exploração do objeto, entendendo o cenário como elemento do vazio, o filme percorre daí toda a graça de uma reconstrução de confianças perdidas no que o ambiente não os tem: Bill passa a ver o misterioso Ryan como um amigo, ainda que este tenha em si um mistério que possa devastar a relação; é, por isso, que as atitudes de ambos substituem a desconfiança no desenrolar da obra pela conexão antagônica deles em se sustentarem ao ‘nada mais se não a amizade’ no vazio da vida enredada no faroeste, tão diferentes mas com um objetivo em comum: a ânsia que, por sua vez, deforma os dois em sujeitos sem contato com nada, nem ninguém, apenas o mundo vazio do deserto, acaba por ser complementar no que um faz pelo outro – muito embora o mistério perdure em desconfiança.
É importante que, disso, com uma bela fotografia – como todos, ou a maioria do gênero -, Death Rides a Horse utilize-se tão bem das cenas: como quadros pintados, os acontecimentos parecem ocorrer além do que é visto, propondo uma contínua ideia de nova estética em cada frame, recolocando o filme não apenas ‘no que é visto’, mas ‘no que se tem ideia’ do que é visto: a dupla imagem interpretada, assim, o filme como objeto de apreço pelo contado mas também pelo mostrado, como se ambos fossem elementos soltos e ao mesmo tempo somáticos. Visto que, por isso, o espectador passa à obra como uma constante de fruição ao que se dá no cenário, proposto sempre com um novo movimento ao reafirmar nos diálogos o que se espera também no que é visto. Uma obra de apreciação ao vazio existencial, afinal, como tantos outros faroestes, mas ao mesmo tempo que se torna uma potente peça narrativa: no que nos é dado, podemos perceber a constante dos elementos dispostos em imagem também no que pretende-se afirmar pelos personagens, como entidades recolocadas ali em um plano complementar ao que já é anteriormente mostrado. Disso, Death Rides a Horse é, como vários outros clássicos, um filme profundo em todos os sentidos, fisicamente pela sua bela condução espacial, ao mesmo tempo que permite uma mensagem tão bem constituída.

Death Rides a Horse - Lee Van Cleef.png
Vemos, disso, que a preocupação com o esmero constituí mais uma vez a força do faroeste mesmo distante dos clássicos: se a simplicidade de ‘uma história de vingança’ permite até o mais subestimado dos filmes ser uma obra tão boa, isto se dá na construção detalhada destes personagens na estética criada com a fotografia como elemento de discurso, como movimentos vivos e em, como dito, quadros contínuos se mexendo e reapropriando da obra uma outra camada de motivações não ditas, mas sentidas no desenrolar dos atos; Death Rides a Horse  uma obra maravilhosa; para ser vista e revista, em mais uma atuação memorável de Lee Van Cleef. Boa Noite e até a Próxima Sessão!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s