O Jardim das Palavras

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O jardim das palavras é uma daquelas típicas animações orientais (neste caso feita pela Toho e não pela famigerada e multi-premiada Ghibli) no qual questionamos todo o nosso talento ocidental ao contra histórias, sobretudo e eu, como assumido fã da Disney, ao ver algo tão potente e simples, possa lidar com este fato de que os caras do outro lado do mundo sabem muito bem utilizar a arte dos desenhos de uma forma completamente diferente – e, em muitos casos, melhor, mais profunda… – que a gente.
Saindo da minha bajulação inicial, é mister alegar que todo isso se deve sobretudo a uma junção de dois fatores no qual um complementa o outro com um trabalho extremamente bem elaborado e um esmero especialmente oriental: ao mesmo tempo que somos dragados pela beleza do desenho – e poderíamos vê-lo no mudo, sem nem ligar para a história através de falas ou sons, pois toda a estética desenvolvida no projeto é incrivelmente bela, um trabalho misturando o realismo dos elementos (como o vidro refletindo, o guarda-chuva de plástico etc.) com o realismo do acaso, ao explorar cenários urbanos orientais de maneira tão bem detalhada; como a cena constante dos trens se locomovendo na ferrovia -, mas não apenas nesta beleza sentimos o poder da obra. Ao explorar deste jeito a estética para contar um desenvolvimento narrativo na proposição de pequenos acontecimentos do acaso, a história volta-se a si mesmo sem grandes saltos, ou exageros, explorando no que cada universo destas conquistas urbanas pode lidar nas figuras sociais ao dizer sobre elas mesmas um fator de grandiosidade explosiva.
Cada pequeno momento, desde entender o olhar no ócio da quebra sobre ‘matar aulas’, ou fugir ao trabalho, ou como estes devaneios em busca de um sonho tão ínfimo – como fazer sapatos – possa levar nos seus personagens ao que estes mesmos ganhos sejam de si algo mais poderoso que a simples proeza a eles atribuída, como um sinal de liberdade interna, que são nas provas cotidianas do que a metrópole tem a oferecer, inclusive no seu antagonismo entre a cidade tumultuada e o seu parque tão calmo, é que se produz qualquer tipo de acontecimento de fato no desenvolvimento dos detalhes para entende-los como atos entrelaçados e complexos.

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Nada na exploração da narrativa é vista na possibilidade do exagero, pelo contrário, o exagero, justamente, se dá na compreensão dos caminho sobre a liberdade entre estas pequenas vitórias geradas pela resiliência; ambos os personagens principais são presos aos seus mundos insuficientes e, estes, rompidos aos poucos conforme se conhecem e podem confrontar – e apoiar – na relação ao que querem para um futuro mais promissor, mas ao mesmo tempo fundado num espaço e tempo no qual os mesmos sigam sua realidade sem fugir necessariamente dos conflitos que a formam. Por isso, a liberdade consolidada é tão pequena, prosaica, mas nos ensina a valorizá-la do mesmo modo, que nestes detalhes possamos entender o valor das coisas: não há mundos ou melindres de explorar no além algo que não se possa ser constituído em pequenas conversas, pequenos feitos. Talvez, por isso, inclusive, a estética tão minimalista do desenho, disposta nestes detalhes condensados que fazem a loucura do universo urbano algo tão rico, é que os detalhes da obra sejam em si tão bons e convincentes o projeto, necessários para explicar as camadas que estes mesmos formulam; como dito por aí, olhar O Jardim das Palavras é como se deparar com ‘uma poesia em movimento’, e toda tentativa do projeto é, em partes, revelar neste sub-texto da simplicidade um movimento sobre as questões no qual possa ser realmente uma exploração da beleza estética de maneira a fazer-se valor como mensagem à vida na metrópole, um cenário as vezes esquecido, ou relegado, levado ao efeito manada sem importa-se com estas pequenas conquistas – sobretudo no caso das animações, que tendem a condicionar uma narrativa fantástica, fictíva, neste caso se reverencia o comum.
Uma grande obra, um ótimo desenho, vale a pena ser visto e revisto. Boa Tarde e Até a Próxima Sessão!

koto-no-ha-no-niwa

 

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