As duas faces de Janeiro

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A tribulação que a obra tenta passar é um tanto quanto estranha, por vezes necessária, por vezes incômoda, como se a narrativa ‘pulasse’ momentos de maneira grotesca ou se tivesse faltado algum nó no enredo, sem preservar características essenciais – e que, de mesmo modo, parecem certeiras por estes furos forçados. Tudo é um pouco ‘rápido demais’, como se não fossemos apresentado aos caracteres com mais sobriedade, num enlace de cenas possível a entender – ou descrever – seus atos, de maneira justificável ou condenável numa narrativa linear, ou apenas que possamos olhá-los com alguma identificação por determinadas características negadas. Em um corte exageradamente ligeiro, logo que começa a trama, seu cenário inicial dá-se numa sequência de momentos aprazíveis na Grécia, em uma relação aos pequenos golpes de um guia como enredo inicial, além de dramas familiares não compreendidos numa nota de falecimento, colocando a beleza exuberante do ambiente como ponto de partida para casos vindouros: primeiramente, o que nos draga é o efeito oposto à importância dos personagens, dispondo apenas no que eles estão inseridos na cena pela beleza dos locais, entendendo-os como figuras ínfimas no universo de tramas também ínfimas, entre guias e turismo, ao passo que a beleza da Grécia nos toma pela fotografia, quase como numa fruição aos próprios personagens lá criados, apreciando tudo sem contato direto com outras realidades senão o olhar do ambiente com uma perfeição muito bem constituída nos detalhes (as bancas, os bares, as obras etc.).
No entanto, durando pouco mais do que dez minutos, a tranquilidade apresentada na frivolidade do turismo rico é logo dragada numa virada exagerada, entre uma morte acidental, fuga misteriosa e tudo que três personagens – entre o guia de turismo e mais um casal – terão de fazer para tentar sair da Grécia, sem serem pegos, enquanto se desenvolve uma relação um tanto quanto dúbia entre este mesmo guia e a mulher do casal. A paranoia iniciada destes atos também diz a respeito da saúde mental do marido que, vendo a situação, coloca-se junto ao assassinato acidental e outros problemas legais sob a imagem de um homem perseguido em diferentes frentes, isolado e cada vez mais arisco aos outros dois personagens que o seguem numa jornada de reparar sua simplicidade original. Mas, todas estas pretensões são corridas por constantes cenas entre cidades, abruptamente reorganizadas pelo fato de que a polícia os procura, sem que possamos, de mesmo modo, desenvolver alguma relação de participação mais profunda com estes cenários – como também dragam dos personagens -, que, embora belos, não nos deixam muito tempo de cena para desenvolver uma certa forma ao conforto da segurança.

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Embora eu tenha visto certas reclamações, entendo que a métrica exagerada ao usar deste recurso de velocidade, em que as informações ficam demonstradas pela metade em paralelo ao que somos apresentados por novos e constantes movimentos, vejo com bons olhos, no geral, a obra. A ‘confusão’ que a dinâmica cria, ao realizar neste efeito um mundo que reflete a relação – principalmente do marido – com suas expectativas, em um golpe turbulento e refém de seus erros, extenuando a paranoia ao ‘estar sozinho’ na empreitada, haja vista que ninguém é, propriamente, um companheiro do mesmo em sua busca insana. Seu isolamento leva a tomada do filme ao vermos nele todos os atos vindouros como uma justificativa do que ele pretende para se livrar do primeiro ato, tendo assim uma bola de neve de eventos catastróficos em suas mãos por não saber lidar com seu erro inicial. Dessa forma, assim como no primeiro ato no que a fotografia ganha o significado ao defender uma paz de espírito sobre os personagens mostrados, no que se desenvolve através da trama de perseguição, a mesma afirma-se no contraste por ser a única que não muda suas relações iniciais: é na paisagem, constantemente, o fruto de uma paz exagerada e incômoda no filme, enquanto tudo dá errado e a mesma transborda a beleza das cenas nas tragédias vindouras como uma claustrofóbica companheira por nunca poder ‘estar longe’ ao fato que todos tentam fugir da Grécia, sem sucesso nenhum. Justifica-se, daí, também o nome da obra, completando nas ‘duas faces’ propostas o oposto de cada uma no mesmo local, porque a segurança disposta naquele cenário é quebrada justamente na mudança abrupta de comportamentos ao que não vemos no início: o casal tão feliz é um desastre; o guia dos golpes não é tão mau-caráter como faz-se parecer. É, assim, que o filme cria um suspense de narrativa rápida, por vezes acelerada demais mas ainda assim interessante, pois sabe transpor no uso da fotografia e do ambiente um elemento muito bom à trama, aproveitando o contexto de ‘estar em’ Grécia para fazer uso disso como boa ferramenta da história; se não somos, afinal, entendidos de maneira mastigada aos personagens, entendemos o motivo dessa velocidade exacerbada como um elemento necessário.

Uma bela obra, vale a pena ser visto e revisto! Boa tarde e até a Próxima Sessão!

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