Gosto muito das comédias de situação, explorando nos atos subsequentes em erros sem fim exagerados ao absurdo – como no caso da cinesérie A Pantera Cor de Rosa -, entre outros, de modo a ver no surreal desenrolar de acontecimentos aumentados num pouco de graça pelo impossível; aquilo que não veríamos nunca, por qualquer motivo, na vida real estes acontecimentos seriam impedidos antes de seu ato final, da mesma maneira que acreditamos numa conexão entre personagens numa eterna possibilidade ao vê-los carinhosamente como nossos amigos atrapalhados e possíveis: são situações críveis e não críveis na mesma proporção, o que nos faz rir por isso, ao tentar romper a linha limite do que é e o que não é. Por isso, o antigo filme Os Visitantes, do diretor Jean-Marie Poiré, um dos grandes franceses a fazer humor do tipo, é algo realmente uma obra muito boa.

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Ignoremos a impossibilidade fictícia da viagem no tempo, um argumento narrativo inteligente a unir aquilo que importa: em dois universos distintos, iguais pela família, transita a incompatibilidade temporal ao lidar entre a evolução social de regiões iguais ao passar dos séculos. Por isso, os ‘homens medievais’, perdidos na história de uma magia e poção com resultado errado, passam a encarar a atualidade enquanto loucos, pessoas deslocadas de seu cotidiano – muito embora conheçam as instalações dispostas melhor que seus contemporâneos (e também parentes), ao realizar em toda sorte de locais secretos e magia a correlação da própria viagem – e o porquê precisarem dela, revisitando seus castelos e calabouços para encontrarem um destino melhor ao reescreverem a história dos acontecimentos.
Neste cenário de ruptura se constrói o roteiro, com um toque pertinente do diretor a, com maestria e delicadeza de discurso, enfrentar os costumes medievais de tal maneira explícita; não há escolha ou romantismo ou afastamento à realidade e este é um dos elementos que mais trabalha em favor da obra; ironicamente, ao expor o ‘realismo’ dos costumes de outrora é que o filme ganha sua graça e singularidade, ao extenuar nestas relações um grau de captura um tanto quanto hiperbólico; pois, por serem tão diferentes, ao viajarem no tempo, aqueles atos no qual julgamos engraçados, ou impossíveis, dão-se justamente os motivos do riso; a comédia é construída, então, num projeto no qual seu irrealismo apropria-se do real, de maneira que em ambos os casos, complementarmente – pela impossibilidade da viagem mas ao explicitar os costumes de maneira crível -, o que era absurdo torna a ser o humor em si nas atitudes mais prosaicas de seus personagens ao se depararem com um dia a dia comum: rimos e gostamos de ver seres medievais alocados tal qual provavelmente se comportariam ao deparar-se com a idade contemporânea e suas insólitas tecnologias e novidades; por isso, os Visitantes envolve o espectador, numa corda bamba entre dois sentidos complementares.
No universo disposto na narrativa do diretor, tão bem explorada (também) em atos rígidos, ao sermos apresentado à história sem a subtração de detalhes importantes – inclusive, com uma introdução maior que o esperado, envolvendo a manta da Idade Média ao mostrá-la em detalhes para dar-se pano para o desenvolvimento posterior das questões -, ficamos vidrados no ritmo, disposto ao incluir os mais variados motivos e, mesmo assim, seguir reto no que se inicia na introdução apresentada: não há perda para um pano de fundo sem noção ou desnivelado entre um antes e um depois sem sentido, pois todo argumento é muito bem amarrado no que é proposto de início; por isso, o exagero, mesmo o mais inexplicável (como personagens que parecem deslocados inclusive no presente, como a mendiga caricata e artística, ou o dentista extremamente e constantemente irritado), acabam ocupando espaço no desenrolar da história com justificativa plausível, haja vista que a mesma se reflete neste panteão multifacetado mas complementar, rico e uniforme num grande contexto, mas não preso em uma possibilidade não aparente, sendo refletido no que todas as suas formas hiperbólicas podem explorar desde argumento irreal, entre viagem no tempo, um romance, e pessoas que se descobrem diferentes ao longo da trama. É, neste exagero dos caracteres que entendemos as estruturas complementares por trás do argumento inicial, ao vermos na caricatura a conexão entre tempos distintos, justificando os acontecimentos numa mesma linha sucessória explicativa na comédia como vínculo do acaso.
Um ótimo filme que vale a pena ser visto e revisto, boa tarde e até a próxima sessão!

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