O Voo

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Um filme no mínimo curioso, no qual por vezes me recusei a ver, imaginando o pleito de ser abaixo do razoável no pretendido, com todos os trâmites duvidosos e até, pra não dizer… padrão demais. O que me levava a duvidar do projeto, inicialmente, era o aspecto – e escolha – que o conduziam num novo tipo de objeto duvidoso, num limite entre cinema de fato e um tv movie elaborado um pouco mais: O Voo é caso exemplo, no extremo entre ambos os aspectos; contando com uma gama de atores retirados das mais variadas séries, além de uma narrativa linear e nenhum grande aspecto no qual justifique uma fortuna – com exceção da cena do acidente do avião, cheia de efeitos muito bem realizados -, tudo que vemos é um recurso que o coloca entre dois mundos; pois nem tão hollywoodiano como o ator principal remete, mas também nem tão caseiro (como seus outros irmãos TV movies), contemplado com um certo esmero; justamente em grande parte pela atuação primorosa de Denzel Washington, se esforçando para dar a passa à obra e não se perder na sua limitação de recursos.
E, muito embora não sendo de primeira classe, esta película consegue ser curiosamente agradável; o grau ‘abaixo’, como dito, no aspecto de TV movie, prende-nos ao fato de que olhamos a obra com um realismo às relações, de modo a exponenciar nas figuras extremas esta cara recheada de dúvidas ou pobreza de espírito, haja vista que o aspecto recorrente da trama põe em cheque toda dureza de caracteres ao nos depararmos com a mais variada gama de desajustados e viciados em todos os nichos da sociedade, derrubando qualquer política moralista ao colocar o problema das drogas e álcool com um estereótipo padronizado e indo além: até o mais pacato cidadão pode se tornar um alvo; é, inclusive, em cenas aleatórias – como as mais somadas reuniões discutindo o processo, entre reuniões e ameaças -, um projeto no qual vemos o ‘além das câmeras’ imaginando o conjunto dos detalhes, mesmo os baratos – como a disposição do café da manhã no hotel, muito bem recriada diante de um realismo exacerbado -, a cara desde realismo ao não tentar fugir por nenhuma idiossincrasia ou fuga para a ficção desmedida – muito embora o mote do filme seja um acidente pra lá de rocambolesco. De certo modo, como a narrativa, todos aspectos banais, as rupturas e as quedas, os personagens transtornados, acabam tornando o filme num curioso projeto de conexão com o espectador, ao ver ali os fantasmas de famílias e pessoas além das câmeras: deixamos de lado os clichês desenvolvidos entre o universo de dramas, ou choros, para olhar neste desapego da naturalidade algo maior, disposto nos diálogos e sobretudo na – sempre bom lembrar – primorosa atuação de Denzel, colocando nas doenças e vícios todo o rancor de instituições viciadas e relações partidas, demorando a se admitir como parte do processo que enreda os acontecimentos de maneira fatídica.

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Daí, do baixo orçamento, de algumas dúvidas entre escolhas de personagens, ou até mesmo de locações, ressurge na obra uma certa estética, a beleza do acontecimento como ‘ele é’, ou como deveria, ao imaginarmos o desenrolar das coisas de outra maneira senão como a ocorrida, estipulando no seu desenvolvimento que vejamos aqueles estereótipos além da necessidade ao cumprir papéis numa ficção, mas como todos os cenários, pessoas etc. que vislumbramos diariamente em qualquer situação: se O Voo começa com um acidente e toda especularização através de uma noção no desenrolar por aquele meio, o que prende ao filme é exatamente o oposto, ao lidar da maneira mais prosaica com os seres humanos da obra. É como se pudéssemos ver nossos patrões, nossos amigos e todas as figuras problemáticas que transitam na cidade, ou que por vezes pretendemos ignorar para fingir que não existem.
Deste modo, ao que falta à obra em termos de renda, ou num pouco mais empática por volta de sobrepor uma narrativa óbvia com um pouco de maturidade e giros mais elaborados, tornando o roteiro atrativo, ou até numa tentativa ao contornar em um trânsito mais complexo, acaba por sobrar em todos aspectos aos personagens transmitindo à exaustão suas maiores particularidades, mesmo no cenário, ao apontar o mesmo caminho de percursos simples mais críveis: O Voo passa, por isso, a valer quase como um relato, um diário fictício em imagens que colora nas relações mais cruas seu valor. Não é um filme brilhante, mas vale a pena ser visto.

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