Young Offenders

Como o tamanho realmente não importa, a pequena ilha da Irlanda é um sinal de vontade sobre as coisas geradas pela humanidade: produziu alguns dos maiores mestres da literatura, bem como grandes músicos incontestáveis, grandes bebidas até hoje apreciadas ao redor do globo, mais e, ainda assim, o seu gosto por fazer filmes despretensiosos e ao mesmo tempo ótimos é um dos maiores destaques: os caras manjam de cinema em todas as formas, sobretudo na simplicidade do humor casual. Young Offenders é um destes casos. Numa comédia de erros, proposta numa mistura de road movie – com bicicletas, ao invés de motos ou carros – e todas as idiossincrasias da adolescência (pobre) das grandes cidades do país irlandês, o roteiro se desenvolve no surreal de uma situação escalafobética e um tanto quanto (também) conhecida para nós brasileiros: um naufrágio de um navio cheio de drogas, que leva a população local a procurar os pacotes de cocaína para gerar dinheiro (tem como não lembrar o famoso Verão da Lata, acontecido em solo tupiniquim?); dentre estes curiosos aventureiros, os dois personagens principais, adolescentes em ócio e sem virtudes peculiares, que veem na oportunidade de ganhar muita grana fácil a chance de sair dos conflitos da época e dos problemas familiares, para poderem ganhar dinheiro e levar uma vida melhor. Dentre este aspecto, toda viagem se perde em uma perseguição policial por bicicletas roubadas, criminosos e os conflitos que os levaram a desafiar a moral e ética num plano maluco e impossível.

Nesta perspectiva, a narrativa do filme – com toda sua despretensão inicial, saborosa na comédia light sem estorvo ou choque – ganha pontos ao se aprofundar em relatar esta leveza, mas ao mesmo tempo prontificada a mostrar os recursos por trás destas histórias, caminhando com cada qual dos personagens através de suas motivações ao serem, então, figuras ricas em detalhes, em movimentos, em anseios no qual possam explicar o advento da combinação bizarra de eventos sem parecer, por isso, algo tão louco ou paranoico: todos estão, entre cobiças e desespero, inseridos no contexto de modo que seja a única saída aparentemente possível. Neste equilíbrio entre o possível e o impossível, é visto que esta relação se desenvolve naquilo que o espectador passa a se interessar sobre um volume contraditório de informações, ao passo que se sente parte de personagens tão reais, ao mesmo tempo que se afasta disso numa história cada vez mais absurda e crível, pungente no contraste por utilizar as idiossincrasias locais como um ícone de desenvolvimento: rimos, entendemos, mesmo sem sermos de fato moradores irlandeses; os problemas e anseios do filme, afinal, são da mais elemental natureza, basilar ideia de que ‘todos sofrem iguais’, mesmo com o exagero.
Todo contexto por trás destes detalhes está ancorado em um uso muito bem feito do ambiente; pois o absurdo das situações disposta nos atos fica ainda mais belo ao se deparar com a fotografia e a escolha de bom grado e realizada nas locações pretendidas, no qual interpreta nas peculiaridades da história um outro elemento muito importante, trazendo mais ‘cara de Irlanda’ a um filme que já é, sobretudo, muito irlandês em outros aspectos – como sotaques, comportamentos etc., e isto se torna palco importante para vermos uma identidade na obra, que restabelece ao dar-se pela simplicidade mas ao mesmo tempo sugar todos os elementos que possam caracterizá-la com uma certa linguagem. Por isso, entre seus personagens, e sobretudo ao ‘entender’ o universo adolescente sem a pieguice do óbvio, Young Offenders sabe lidar com estas características que o transformam em uma obra simples, mas ao mesmo tempo complexa entre valores e motivações de maneira bem singela: vemos, ali, que os personagens ‘ganham vida’ ao se animar com a realidade de que condizem à mensagem da narrativa, passando então de meros e representantes sem vida para momentos ricos e que conectam na expectativa com aquilo que possa fazer parte de maneira ao espectador querer vê-los; no final, somos dragados aos conflitos e seus (pequenos, leves) desesperos, ao sentirmos parte daquilo e torcermos por uma resolução positiva aos mesmos.
E, mesmo com a despretensão, o filme ganha muitos pontos, pois explora na sua simplicidade o roteiro de maneira digna e muito bem amarrada, revelando mais uma comédia irlandesa insana e de muito bom gosto, trafegando em algo que eles sabem fazer como ninguém. Vale a pena ver e rever!

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