Relatos Selvagens

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Relutei a ver Relatos Selvagens em grande parte por Darin; apesar de ser um ator muito bom, acho que ele entrou numa perigosa relação de moto-contínuo no qual faz vários filmes e todos semelhantes – bons, sim, mas sem uma identidade muito clara, naquela óptica de reproduzir o mesmo papel ou roteiro parecido, com pequenas alterações para se justificar e emulando um personagem que não difere na totalidade dos argumentos. Então, quando me indicaram ‘mais um filme do Darin’, imaginei ser exatamente isso. É claro que alguns cacoetes do ‘novo cinema Argentino’, por assim dizer, estão na obra… mas, nem por isso, ela perde sua graça, sua inovação, ou deixa de ser ótima.
Um filme de curtas, contando as explosões urbanas diante de situações prosaicas (ou nem tanto), conforme seus personagens, ao desenrolar, perdem a cabeça e apelam para as situações mais dramáticas, violência desmedida ou calculada, tentando vingar-se das injustiças em relações tão simples mas ao mesmo tempo exageradas pela soma dos detalhes catastróficos.
Dentro desta ruptura, o que é apresentado, sempre em tom de comédia, é a pressão de pequenas rusgas urbanas numa probabilidade no qual todo mundo já pensou, mas nunca realizou para além da ficção da mente humana: uma vingança insólita mas provável, tentando restituir a perda de um senso no qual toda vingança possa ser explicada e justificada, de modo que isso possa ser feito através de um ato ainda mais absurdo que o que origina a crise de ódio.
O grande trunfo a obra é o esmiuçamento destas relações de maneira bem embasada; embora em curtas (seis, no total), em nenhum momento o desmembramento da narrativa perde o foco ao relacionar sua necessidade de entender a delicadeza dos problemas como o principal ponto a se discutir; pois, cada situação, é construída nos ínfimos detalhes, os ‘pequenos gestos’ que levam aos ataques de loucura. Por isso, é importante – e a película retrata muito bem – que o entendimento e afunilamento das situações seja a característica básica das histórias; dessa forma, o roteiro prende-se a explicar, contando em cada curta como o desenvolvimento do acesso explosivo de loucura se dá, porque o principal ponto na virada das histórias é, justamente, sentir-se parte do acesso de fúria como um igual ou semelhante, colocando uma similaridade entre o personagem e o espectador no mesmo plano. Por isso, a repetição das tragédias, o adensamento das situações no que o espectador entenda o stress é muito bem construído ao mostrar em cada plano, cada conto, a retrospectiva dos atos no qual o personagem principal é levado à sua explosão; todas histórias são montadas, então, numa constante em presente e diluição de um ato consagrado no passado: uma briga, um atropelamento, um ressentimento, uma vingança, todos os caminhos montados ao que se possa ver, no agora, o que estes personagens sofreram ou sofrem pela continuação deste acaso em um tempo que já correu sem voltar mais. Ao olharmos o personagem naquilo que ele rompe no antes e no depois, o acerto de Relatos Selvagens se dá ao entender esta ruptura, entre olhares, histórias, detalhes e até trejeitos: pessoas calmas que perdem a cabeça; pessoas sofridas que resolvem se vingar na mesma moeda; pessoas com medo que viram monstros agressivos. No contraste entre um antes e um depois é que a obra acerta em seu tom, pois aponta na constituição desta necessidade em entender como o desenvolvimento da história afeta no resultado final, martelando o que era um evento prosaico ao tornar-se um martírio incurável.

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Ao longo das histórias, vemos uma repetição daquilo que eu chamei de ‘novo cinema Argentino’, um clichê moderno muito bem constituído neste caso: o uso dos cenários como efeito do filme é uma das grandes sacadas da nova escola de cineastas hermanos, pois constituí na importância dos espaços que o decorrer da trama seja, também, uma assinatura sobre a forma. Notem como, a despeito de passar sempre em ambiente diferente – um avião, um bar, uma estrada, a cidade, uma casa e um salão de hotel -, o desenvolvimento da peça faz uso destes aspectos para que se possa compreender também no ambiente o decorrer de uma assinatura, a cara dada ao projeto argentinizada ao talo. Notem que, mesmo em alguns ambientes genéricos (como o bar, ou a casa), a ideia de uma ‘argentinidade’ fica presa em certos elementos; como o caso de servir as famosas ‘papas fritas’, ou citar o bairro da localidade ao mostrar-se a reportagem de um jornal em San Isidro; desta forma, mesmo que os ‘problemas explosivos’ sejam globais, há também a característica local, ao explorarmos a Argentina, sobretudo sua principal metrópole, em diferentes ângulos, ambientes e formas, conciliando a isto um elemento também importante à trama, porque a cidade ganha vida ao se poder vê-la interpretada como parte de um desenrolar de atos que identifiquem longe de um cenário genérico e sem força, mas justamente ‘ao se desenrolar na Argentina’.
No final, mesmo com alguns clichês, vale a vista, pois apresenta um espectro, sobretudo pela divisão em curtas, novos personagens em novas histórias numa narrativa diminuta e fatiada, que nenhum outro dos filmes recentes argentinos tem. Uma ótima obra, vale a pena ser vista e revista!

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